Varanda da Sinhá da Camiranga
 


Meu bordado de Natal

 

MEU BORDADO DE NATAL

Natal é época de dar presentes. Tem gente que adora: a festa, as músicas, as trocas de presentes, a reunião com a família, a alegria da estação. Não fui sorteada nessa loteria. Não consigo sentir a tal "joy of the season", que tanta gente diz experimentar. Tem até uma musiquinha natalina que toca em todos os lugares aqui nos Estados Unidos nessa época que fala assim: "it's the most wonderful time of the year". Eu, pra fazer troça, mudo a letra pra "it's the most difficult time of the year". Justamente por conta das festas, das músicas, da loucura que fica o comércio e o trânsito. E também pela falta que me fazem pessoas que amei e que já morreram. Ou ainda aqueles que moram muito longe e cuja ausência, especialmente nessa época do ano, fica ainda mais aguda e dolorida. Saudades do Brasil também.

Portanto, como meu dinheiro anda curto e minha paciência para filas em lojas ainda menor, vou tentar deixar um presente, uma lembrancinha como dizem singelamente aí no Brasil, para uma pessoa muito amada que nesse Natal decidiu não sentar à minha mesa. Não por estar morta, graças a Deus, mas por estar atravessando um momento da vida dela em que a distância dos familiares é por si só um presente. Acontece, nas melhores famílias. O que nem de longe é o caso da minha: somos apenas gente comum, jamais poderíamos protagonizar comerciais de margarina.

Meu presente será feito com palavras, matéria prima tão maleável e acessível a todos, tão de graça, abundante e fluída como a água que poucos prestam realmente atenção nelas. Embora, exatamente como a água, elas sejam essenciais.

Meu presente para você, a que estará ausente, seria que você mantivesse sempre vivo em seu coração o sentimento de amar a Vida, com maiúsculas mesmo. A vida, só ela, esse sim, é o maior dos presentes.

Não apenas a sua vida, mas também a dos seus semelhantes. E a dos animais, das plantas, dos rios, dos mares, de tudo que respira e se move e sonha.

Deixaria a consciência de tentar aprender tudo o que foi ensinado ao longo do tempo por sábios que já viveram muito antes de seus tatatatataravós sequer existirem.

Deixaria a você, se pudesse, o respeito àquilo que é indispensável: a justiça, a honestidade, a limpeza de alma e propósitos. E, muito importante, o amor aos livros. Livros são amigos que nunca traem, nunca abandonam e estão sempre ao seu dispor.  Alguns são pura mágica, espelho limpído onde sua alma se vê por inteira,  se reconhece e se fortalece. Esses são raros e tão individuais quanto impressões digitais. Mas se você tiver a sorte de encontrá-los vai sentir que eles são mais seus do que um filho seu, embora não tenham nascido de você.

Deixaria também a alegria de ganhar seu pão com trabalho honesto e o prazer de repartí-lo com aqueles a quem você ama. Mesa boa é aquela rodeada por amigos e amados.

A coragem de agir sempre que a vida, a justiça e o bem estar de alguma pessoa ou outro ser vivente estiver ameaçado.

A valentia de não se omitir e nem precisar fazer parte dos rebanhos que seguem modas e tendências efêmeras e nem sempre positivas.

Se eu pudesse lhe deixar algum presente seria essa única dica:

pense em sua vida como um bordado, sendo construído dia a dia, os pontos sendo todas as suas escolhas, pequenas e grandes. Eu sei que assusta. Acredite: já tenho quase 50 natais e ainda me apavoro com essa idéia, com a responsabilidade embutida nela. Mas acredite: sei que ela é verdadeira. 

Adoraria poder lhe dar um pacote bem grandão, transbordando de sabedoria, para que você sempre escolhesse apenas as cores alegres e desse sempre os pontos certos no seu bordado. Mas, infelizmente,esse presente não posso lhe dar. Porque ele só virá com o tempo, esse senhor caprichoso, misterioso, e tão bonito quanto a cara de meu filho, como tão lindamente compôs Caetano.

Ao errar não se desespere, não rasgue o tecido, não jogue tudo fora, não pense que não tem conserto. Nessa arte de ir bordando a vida não se fala em "se você errar", mas em "quando você errar", porque os enganos são inevitáveis. E, ironia das ironias: com eles também se aprende a bordar. Portanto, tente lembrar de jamais menosprezá-los, porque isso só os estúpidos fazem. Mas tente também jamais supervalorizá-los, porque isso também é estupidez e só vai criar mais confusão no seu bordado, embaçar sua visão, complicar com neuroses e culpas coisas que já passaram e que devem ficar no passado. Tente apenas não repetí-los e já vai estar de bom tamanho.

O ofício de bordar é difícil mesmo, nunca ninguém disse que seria fácil. Mas o grande barato dessa arte delicada é que  sempre é possível desfazer os pontos errados, mudar o desenho, trocar as cores que não combinam, inventar novas modas. Dá pra fazer um risco torto virar o começo de um curva enorme, linda e sensual, igual as do Niemeyer. Ou algo pequenino, como o rendilhado primoroso da asa da borboleta. Sempre é possível recomeçar.

Cada novo dia é um espetáculo inédito e cada um de nós decide se ele findará em lágrimas, como uma tragédia. Ou em drama, como numa ópera daquelas bem barulhentas. Ou com olhos arregalados, coração agoniado e gritos de um filme de terror. Ou ainda em risos e alegria e mais garra para viver, como nas boas comédias. Que nos tornam leves e com vontade de sair por aí cantando e dançando até mesmo na chuva, como naquele clássico do cinema. 

Para terminar e embrulhar esse presente inusitado, mistura maluca de ABCs e todos os irmãos e primos dessa família fantástica, minhas últimas palavras: quando a agulha picar seu dedo, o sangue dolorido respingar no bordado e sua vontade for desistir de tão complicada arte, não faça nada, além de ir para um canto e chorar bastante.

Nunca faça nada na dúvida, porque isso é sair do terreno instável da incerteza e entrar na areia movediça do risco. Chore tudo o que puder, soque seus travesseiros, canse seu corpo, de preferência nadando no mar. Stress se dissolve em água, isso já aprendi com os meus tais 50 natais. Depois seque os olhos, se vire no avesso e vá buscar em seu interior a coragem e a força para encontrar a saída.

Porque pode acreditar: ela sempre existe. E está mais perto do que você imagina.

Feliz Natal!

                                                             

 


 



 Escrito por Sinha Clementina às 14h05
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VIAJAR: É MUITO BOM; IT'S SOOOOO GOOD; C'EST SI BON!

Hoje não vou prosear não, só mostrar umas fotos do nosso passeio lá pelas terras das Oropa.

Lugar lindo, de muito procedimento, um exagero de belezura, castelos, palácios, estátuas, mármore, granito, quadros e dourados saindo pelo ladrão que só ocês vendo mess, nem dá pra Sinhá tentá explicá causo de que ali tem História pra mais de milha. Mas foi ótimo. Sequóia e Sinhá tomaram muito vinho, riram muito, namoraram bastante e recarregaram as baterias para mais uns meses de trabalho, até as próximas férias. 

Beijim pr'ocês.


o



 Escrito por Sinha Clementina às 20h39
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Sinhá nas Oropa

SINHÁ NAS OROPA

                                          

 

 

Vou entrar no trem que avoa


Pras Oropa vou zarpar


Só volto pra Camiranga


Dispois de muito passear



Quero ver se o Carnaval de Munich


é mesmo coisa animada


E se a salsicha com cerveja dos alemão


bate a nossa feijoada!



Pros gajos de Trás dos Montes já mandei um recadim 


Sequóia quer farinheira, vinho verde e bacalhau


Enquanto Sinhá aprecia azeitonas, pão de alho e uns trancelins



Das cachopas bigodudas e de fados nem me falem


Disso eu só quero é distância


Me poupem de lamúrias e daquele “nem as paredes confesso”


Causo de que se eu gostasse de gente feia e papo furado


Ficava na Capetinga ouvindo as prosas do Nerso.



Quero ver as belezuras dos antigamente,


As estáutas peladas, a torre Eiffel iluminada


Encaro inté a Monalisa  rindo de lado

 

 

feito solteirona encalhada.


 


Quero andar pelas mesmas pedras 


onde pisaram Dumas, 


Camille, Lautrec e Channel


Ver onde a burrinha da rainha


perdeu os dedos, a cabeça e o anel.


 

Quer saber?

 

Bem feito pra  Antonieta


mandou o povo comer brioche


encontrou dona Guilhotina e bateu com a caçuleta!



Eu quero é mais, eu quero é tudo,

 

eu sempre quis muito, mesmo que parecesse ser modesta...

 

juro que Sinhá num presta

 

como falava Caetano naquela poesia que é uma festa.



Quero a brancura da neve, o fogo crepitando numa lareira,

 

eu quero a lua sobre o Sena,

 

os croissants, os queijos e chocolates, 


os perfumes e a música 


todo o encanto e o romantismo de Paris


Muito vinho e amor a noite inteira, toda noite


Eu quero, eu preciso, eu mereço ser feliz!



Quero esquecer desse furdunço


de notícias tristes, de morro desabando e gente soterrada.

 

Déspotas, tiranos, gente besta e infeliz


Mubarak, Osama, Kadhafi


A Líbia e o mundo sempre sempre por um triz...



Só peço duas semanas


Misericórdia, eu mereço!


Quinze, quinze diazinhos


De total desligamento


Só namorando o marido


comemorando e bebemorando


vinte e cinco anos de casamento.



Inté!

 

 



 Escrito por Sinha Clementina às 02h46
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MEU FINADO JUSTINO

Já contei causos pr'ocês do Sequóia, do Pinheirão, mas botei reparo que nunca contei nenhum causo do Macieira, meu primeiro marido, nem do Justino Jequitibá, o terceiro, di modos que hoje vô fala um pouco delezin, conta um causo c'oele.

Justino era um homem bom, mas meio sistemático. Humor dele era meio seco, das veiz inté assustava, mas no final ficava engraçado. Assucedeu de uma vez Justino mais Sinhá dá um pulin no Rio de Janeiro, passear um cadim. E fomos tomar água de côco na praia.

Pertim tava acontecendo uma feira, um bando de gente vendendo colar de miçanga, pulseira de latão, essas bugiganga que vende nesses lugar. E tinha um sujeitim na tal feira com um corte de cabelo muito do esquisito. Os lado da cabeça era raspado, branquim que inté parecia as veias . No meio do bestunto dele o cabelo era todo arrepiado, espetado mes, e cada pouquinho tinha uma cor diferente. Era uma coisa esquisita: começava vermelho pertim da testa, dali a pouco virava um roxo, verde, amarelo, azul, tinha de tudos as qualidade de cor. Comentei com Justino que o pobre devia de trabalhar em loja de tinta, sendo o mostruário. Justino balangou a cabeça concordando. Eu dali a pouco me distraí com outras coisas, mas Justino achou aquele penteado deverasmente interessante e num parava de olhar. Canudo na boca, chupando a água de côco, e olhando pro sujeitim, impressionado mes.

Teve uma hora que o rapaizim, incomodado com aquela encaração do Justino, falou ansim:

"Qualé velhusca, nunca fez nada meio maluco na sua vida?"

E o Justino, sem perder o passo da dança, arrespondeu ansim:

"Fiz sim. Uma vez enchi a cara de cachaça, cabei caindo no galinheiro e passei a noite com um pavão. Tava aqui matutando se ocê num podia de sê meu filho".

Povim da feira morreu de rir e dali a pouco o talzinho enrolou as tralhas dele numa esteira e foi cantar noutra freguezia.

Justino era daqueles home quieto, que mais escuta que fala, mas quano falava tomém era porreta, matava a pau. 

Beijim pr'ocês

 

                            



 Escrito por Sinha Clementina às 11h06
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ENTREGA PRO UNIVERSO!

E teve uma vez que passou aqui pela Camiranga e vilinhas dessas paragens um sujeito que se dizia guru, conhecedor das sabedurias lá do Oriente. Sujeitim falava umas coisas compricosa que só ocês vendo mes. Era um tal de falá em inteligência superior de outras galáxias, alinhamento dos planetas, das teorias de uns físicos dos estrangeiro, uma tal de numerologia, cabala disso e daquilo. E tome juntar números, e fazer contas, e uns papo cummmmmmprido sobre matéria, molécula, átomo, protóns, espaço, tempo que entorta, que desentorta, um angú de caroço daqueles impossíver de desencaroça. E quano povim perguntava pr'ele sobre os perrengues normais da vida, do tipo ansim, como enfiá juízo na cabeça de filha desmiolada, como se livrá de uma sogra encruada -- daquelas que tem 99 anos e num tem jeito de morrê e pará d'azucriná -- como lidar com mulher resmungadora, ou home turrão, esses causos mais urgentes que tem em todas as famílias, o tal do guru só sabia falá ansim: entrega pro universo. E dava um sorrisim, como se tivesse falado a coisa mais certa dessa vida. E povim num entendia que diacho de conversa mais enrolada era aquela. 

Depois de uns dias povim largou o tal do guru pra lá, causo de que essa conversa de entregá tudo pro universo tava enchendo os picuás de todo mundo. Apelidim do guru virou "Disco Quebrado". Mas pelo menos a passagem do guru por essas paragens valeu pra uma coisa: deu uma idéia pra um rapaizim lá da Coxaminga que tinha perdido o emprego e tava desacorçoado, sem sabê como ia alimentá a renca de bacuris qu'ele tinha em casa. Por sinar o nomim dele sabe qualéquié? Universo, tomém cunhecido como Versim da Coxaminga.

Ele abriu uma portinha e Takeo fez lá a plaquinha, um tar de Delivery. Dizia ansim: 

                                                      

                                            "Carece de quarqué coisa? Aprecia um leva e traz?

                                    Entregue pro Universo e esfrie a cabeça

                                           Serviço garantido, é zás trás"

No começo povim num tava entendendo nadica de nada, mas dali a pouco viram que era coisa boa,uma dessas modernidade diagora, coisa chique que diz que tem de monte nas cidade grande ansim feito Sum Paulo e Belrizonte. E desdintão sempre que alguém dessas vilinha quer despachá quarqué coisa (carta, bilhetim anônimo, galinha poedeira, burro chucro, o que ocês imaginá) eles entrega pro Universo. E Versim parece notícia ruim, circulando rapidim, entregando de um tudo pela Camiranga, Coxaminga, Curuça, Cudumundópolis e inté nas vilinhas pra lá do Fim do Mundo.

Vivente esqueceu o guarda chuva em casa e caiu um toró? É só telefonar pra lojinha do Delivery e dali a pouco o Universo vai entregar.Ou carece de um supositório no meio da noite, de um sal amargo, um Viagra atômico? É só ligar pra boticario qu'ele entrega pro Universo e dalí a pouco o sofrente tá podendo cuidar do fiofó, refrescar as tripas, ou botar a gurumbumba em órbita. Eita que a Camiranga tá ficando chique por dimais num é mes? 



 Escrito por Sinha Clementina às 23h40
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LEMINSKI, DE NOVO


PODEM FICAR COM A REALIDADE

ESSE BAIXO ASTRAL

EM QUE TUDO ENTRA PELO CANO

EU QUERO VIVER DE VERDADE

EU FICO

COM O CINEMA AMERICANO!



 Escrito por Sinha Clementina às 12h40
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FOLHA OU FALHA?

FOLHA OU FALHA?

Sinhá tá meio besta. Imagine ocês que por causo daquela nuvem preta que das veiz paira aqui em cima de meu bestunto fiquei muitos dias sem querê sabê do mundo, sem lê jornar, nem nada. Di modos que estava mais por fora que umbigo de vedete nesse imbróglio entre a Folha de São Paulo e um site de uns rapaizin, Lino e Mario Bocchini, que tá fora do ar e se chamava " A Falha de São Paulo". Os irmãos Bocchini são dois sarristas ansim feito Sinhá, pelo jeito eles adorava mangá com a Folha, tirá um sarrinho no tar jornar. Di modos que os adevogados da Folha tacaram uma liminar contra os rapaizin e cunseguiro tirá o site deles do ar, dizendo que eles tava "usando indevidamente o logo da Folha". E se eles desobedecê ( gente sarrista adora num obedecê nada) leva uma multa braba.

Sinhá tem duas cumadres conhecedoras de leis e vai perguntá pr'elas se isso tudo faz argum sentido. Mas sei não, tá tudo me cheirando a censura mes, daquelas bem fedidas. Pior que essa só aquela que a famia dos home lá do Maranhão tascaram contra um outro jornar, o "Estado de São Paulo", que tá proibido de publicá quarqué notícia sobre a tal famia lá dos "Honoráveis Bandidos" senão toma uma multa, uma facada no bolso daquelas de deixá o vivente inté sem rumo. 

Fiquei matutando sobre esse imbróglio todo e me veio uma idéia: os rapaizim Bocchini podia era relança o site de humor deles ( e humor é uma das melhores coisas dessa vida gente, ocês pode acreditá nessa Sinhá) como a "Filha de São Paulo". Não o estado, mas o santo católico. Podiam ponhá lá um desenho de uma vedete, saia curta e cigarrão pendurado no beiço, daquelas mais desavergonhada que a Mocinha que transava com o padre e que a Dadivosa da Camiranga. E  atrás dela, de boca aberta, o painho dela,com aquela aurelinha em vorta da carequinha dele e tudo. A tar "Filha do São Paulo" ia sê umazinha bem debochada mes, e fofoqueira, pior que dona Amélia, daquelas bem enxerida, que se mete em tudo e que fala mais que a boca. E o paizim dela, o São Paulo, ia parecê no logo do site novo bem escandalizado, bestificado mes. Inguarzinho Sinhá tá agora com essa mania horrorosa que tá se espalhando no Brasir de gente poderosa querê calá o direito de expressão dos outros. Coisa feia por dimais, ocês num acha? 



 Escrito por Sinha Clementina às 10h42
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Esperança

ESPERANÇA

Meu nome é Sinhá Clementina, mas eu queria era me chamar Esperança. Premeiro causo de que é um nome bunito. E segundamente causo de que, desquieu era criança pequena, lá nos cafundós donde sai antes de chegar na Camiranga, escuito falá que a Esperança é a última que morre. E de uns dias pra cá voltei a achar que deve de ser bom ser a última a morrer.

Di modos que pra homenagear a esperança, que das veiz me abandona, mas nunca morre e sempre -- mais cedo ou mais tarde -- volta pra minha varanda, vou repartir aqui c'ocêis  parte de um poeminha de uma mocinha muito da talentosa chamada Emily Dickinson. A pobrezim já partiu pro além do aquém lá nos antigamente. Línguas de Matildes dizem que partiu virgem, a pobre, ô dó que me deu delazim. Mas apesar dessa triste sina Emilizim sabia fazer versinhos mimosos, vale a pena conhecer. Minha vizinha, Sirvinha, traduziu pr'aqueles que num entende essas língua enrolada de gringo. E deu uma ajeitada nos verso pa mode de rimá, mas garantiu pra Sinhá que a idéia foi preservada, inguar pepino que vira picles. Tomara que ocês goste.

 

Hope is the thing with feathers
That perches in the soul
And sings the tune without the words,
And never stops at all.

A esperança é aquela coisa delicada
Que sem nunca cessar
canta uma canção sem palavras
pousada dentro da alma!
 
Beijim da Sinhá


 



 Escrito por Sinha Clementina às 16h54
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A BELEZURA DO LEANDRIN

Faz coisa de uns dias entrei no trem que avoa, larguei Sequóia suzinho lá na Camiranga e vim pro Brasil, minha terra.

De todos os versinhos lá do hino nacional, esse é o de minha predileção: " terra adorada, entre outras mil és tu, Brasil, óh Pátria amada...", causo de que é verdade mes, da legítima, ao menos pra mim. Di modos que já comi minhas paçocas, já tomei suco de maracujá daqueles saído da fruta, não de garrafinha, já comi goiaba no pé, já matei a saudade de uns parentes e amigos e domingo matei uma vontade antiga minha: fui pra São Paulo ver de perto a belezura do Leandrin, que é a cara do Pinheirão, meu finado segundo marido.

O rapaz é uma flor de formosura, muito emboramente seja home com H, daqueles que num deixa dúvida. Tem um sorriso lindo, uns olhos de lince, uma boca carnuda e bem feita , uma voz doce e suave e um bom humor e uma simpatia apaixonantes. Leandrin é um dos ídalos de Sinhá. Acho inté que vô dá uma idéia lá pro povim da viação do trem que avoa, a TAM, e falá pr'eles deixá de bestage e ponhá Leandrin lá na revista deles, na coluna "O melhor do Brasil".  Causo de que, inguar falava o Chacrinha, ele merece, ele merece.

Como eu prometi, táqui o retratim da belezura do Leandrin e essa Sinhá, descabelada.

                             



 Escrito por Sinha Clementina às 10h56
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PARA SEMPRE LEMINSKI

Leite, leitura


letras, literatura,

tudo o que passa,
tudo o que dura


tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura


tudo,tudo,tudo


não passa de caricatura
de você, minha amargura


de ver que viver não tem cura

 

Paulo Leminski - poeta e escritor brasileiro ( 1944-1989)

 

                         



 Escrito por Sinha Clementina às 00h04
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A CARTA DOS VINHOS

Cumadi Sinhá 
Vim aqui pra mode proseá um cadim. Tudo nos conforme aí na Camiranga? Pur aqui tudo na mesma toadinha. Só tem uma novidade. 

Seu cumpadi Noélio arresorveu tirá as aranha do bolso e comprô aquela antenona que a gente coloca no quintal, que nem um guarda-chuvão. Inté parece um disco de carregá ET, mas num é não. Cê sabe do quê eu to falano, né mulé? Aquela sombrinha graaaaande, distrambólica, que o povim coloca no quintal ô incima das casa e aí a televisão funciona tudo sem chiado, sem aqueles fantasma trapaiando a vida da gente.  Ai, cumadi!!! Tem um mêis que eu escuito tudo dereitim, inté parece que tirei um quilo de cêra dos zuvido. E os  beijo da novela... Quano aquele Zé Mai pega a negona no jeito... aff, meu suador fica fêi...  Falá verdade pr'ocê nesse particular nem sei se vai ser coisa boa essa televisão mostrando esses furdunços bão nas novela causdique a gurumbumba do seu cumpadi num é mais aquelas coisas dos antigamente...

Mas vortando às vaca fria, a tar da distrambólica  mostra tomém uns programa deferente.  Além dos chifrudo, dos corno da Márcia Gôdimiti e das sessão de  descarrego dos bispos lá da Disimbréia de Deus, o que num farta é programa de fazê cumida. Cada receita arretada, com uns trem que eu nunca nem ouvi falá cumadi... Povim dos estrangeiro num cunhece quiabo,  jiló, chuchu, bobrinha, figo de galinha. Eles vive falano de uma uma tar de cachofra e aqueles cogumelim onde nasce sapo cê sabe? Inté tinta de lula cumadi eles usa pra tingi o arroz. Sabe lula? Não o safardana lá de Brasília, mas aquele peixe mei parentado do polvo, gosmento que dá inté nojo. Essas gringaiada come inté lesma de caramujo cumadi, virge Maria!!!!


Mais tem uma coisa que me disinquieta, cumadi, cê num vai querditá. Tem um programa de um homi que fala bem inrolado e uma mulé dos zói bem azuzim. Eles cunzinha esses bicho do mar, uns que vem numa concha, parece inté catarro, creio em Deus pai. Eles ficam lá naquela prosa animada e sempre termina falano de vinho. Aí, eu cumecei tentá entendê a prosa deles pa mode de variá um cadim, faz 30 ano co Noélio só compra um tar de Chapinha, cansa né?. Mas qualoquê!!! Ou eu sou doida ô intão eles bebe além da conta, e fica tudo chumbado apareceno na televisão.Cumade, cê já ouviu falar que vinho pode tê personalidade? Ocê pur um acauso sabia que tem vinho alegre, tímido, descontraído, elegante ou compléquisso? Pra mim, que sô do cerradão do Goiás, isso num era possíver, não! E é um tar de dizê que o liquidim vermeio que eles toma é delicado. Vinho delicado? Só farta dizer que é viado e fala "dá licença " pra descê guela abaixo. Eles diz também que o danado é bem-humorado. Será que o vinho lá deles conta piada? Ara sô!O rapaizim tomém fala que o vinho é robusto, impetuoso, indomável. Pra mim, Sinhá, isso tudo só gente pode sê, ou bicho, feito o Brioso, meu cavalim que vivia dando coice e dirrubando gente ocê se alembra dele ?

E tem mais, cabô não. Tem vinho lá deles com gosto de pimentão! De mantêga! Se eu quisesse comê mantêga, comia no pão, mas vinho com gosto de mantêga? Cabô não: eles fala que tem vinho com gosto de pedra, tabaco, couro, cumadi do céu, ocê avalie um trem desse? Nessa toada um dia inda vô escuitá que o vinho deles tem gosto de barata e que é uma dilíça! Mais o pior eu num ti contei, cumade. Esse povo chicoso é cheio das tiqueta! Come com bico de passarim, galfo, faca, trocano de mão em mão, guardanapim na boca, toda hora. Os homi fica pareceno umas moça com tanta delicadeza, inté dedim levantado, umas boiolice esquisita. Mas pra tomá vinho cumadi, a coisa muda. Eles faiz umas coisa que nem nóis que somo tudo matuto tem coragem de fazê. Arrepara só: premero que eles toma vinho numas taçona que mais parece uma tina de lavar roupa. Coloca só um tiquinho de bebida e tocá chacoaia. Dispois num é que eles tasca o narigão lá dentro e fica fungano? Deuzolivre, coisa mais feia sô. E dispois ainda eles buchecha, antes de enguli o diacho do vinho com gosto das sandice qu'eles inventa. E inda istala a boca, faz baruio, óia coisa feia qu'ocê tem que vê pr'aquerditá

Sinha vê se faiz uma forcinha e baixa aqui no cerrado pra vê essa distrambólica dos inferno, pa mode de ajuda ieu a entendê esse diacho desses programa de cumida de gringo. Eita ferro, que tem umas modernidade diagora capaz de dá nó no bestunto da gente num é mes?

Sua sempre cumadi e amiga


Nana do Cerrado

 



 Escrito por Sinha Clementina às 10h32
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A ASSEMBLÉIA DA ALEGRIA

Faz tempo que Sinhá pensa em abrir uma igrejim. Tanta gente tem uma, porque não a Sinhá num é mes?


 Essa vontade parece aquelas moscas varejeira, que vai e volta, de tempos em tempos fica girando no bestunto de Sinhá, mas nunca foi pra frente. 


Quando foi essa semana minha comadre Arzira ressuscitou a idéia e chamou Sinhá pra botar fogo na canjica e lançar de vez a tal igrejim.  Estamos nos preparativo e já aceitando o registro dos fiéis, que podem se cadastrar aqui ou no cafofo da comadre Gisele Arzira.Vai se chamar Igreja Internacional da Vara Milagrosa, com a matriz em Sorocity e filial na Camiranga. 


Preocupa não bobo, que a nossa vai ser uma congregação bem diferente de todas essas que existe por aí. Pra cumeço de conversa na nossa igreja só mulher vai ser manda chuva, causo de que os home já fundaro igreja dimais nesse mundo e só criaram porcaria, só inventaram história compricosa, pa mode de enfiar culpa e sofrimento no coração dos viventes.


Arzira já falou que vai querer ser chamada de Pastora Gigi e que vai comandar a matriz com um cajado na mão. Alias, elazim já vive de cajado na mão. Arzira é enfermeira que sabe tudo pa mode de resorver os perrengues dos viventes que perdem o controle da caixa preta e do mijador deles. Profissionar competente, com instrução pra mais de milha, a comadre sabe fazer um caceterismo (passar uma sonda pelo bilau dos sofrentes) como ninguém. E é bastante versada nas manobras kamasutristas e nas ginásticas pra fortalecer os curanchinhos e assoalhos pélvicos alheios. 


Fiel da Vara Milagrosa vai ficar com os fundilhos nos trinques seguindo os ensinamentos da comadre. Que adianta salvar o espírito e não cuidar da gurumbumba e do estreito de Guimarães? Na nossa igreja a salvação será completa.


Democraticamente já decidimos que não vamos perder tempo com rezação,causo de que nem ela nem eu somos dadas a essas atividades. Na Vara Milagrosa só rezaremos o Pau Nosso e o Senta Maria, duas orações engraçadas e curtinhas que dispois ensinaremos aos fiéis interessados.


Os sermões vão ser só de coisa engraçada, shows de humor e causos pra fazê povim rir muito. Invez de falá de Adão e Eva, virgem que pega barriga sem deitar com home, cobra que dá conseio ruim e outras bestages  de que a Biblia tá cheia e o padre Cândido da Camiranga num se cansa de repetir, povim da Vara Milagrosa vai assistir os filmes do Gordo e o Magro, do Chaplin, do Mazzaropi.


Nada de falar de coisa triste, de num pode isso, nem aquilo, nem aquiloutro. Nossos fiéis vão se reunir pra cantar, dançar e rir muito com as graças do Abbot e Costelo, do Jerry Lewis, do pessoal da Terça Insana, do Chico Anysio, do Chaves e do seu Barriga  e outros da mesma laia. 

Vamos reescrever tomém os mandamentos e a lista dos pecados capitais. Quem foi o fiodumaégua que inventou que gulodice é pecado? E que fazer amor é coisa ruim? Essas regras tão tudo errada e a Vara Milagrosa vai corrigir isso tudo. Aceitamos sugestões e idéias. 


Invés de falá de Jesus Cristo, Maomé, Jeová e tantos outros que ninguém sabe com certeza se nem existiram mes povim vai aprender sobre o Gandhi, o Martin Luther King, o Mandela, a Madre Teresa, os Doutores da Alegria, o Sequóia, o Bill Gates, o Jairim, gente de carne e osso que fez e faz coisa boa. E sem truques e milagres, tudo legítimo, confirmado e comprovado.

Gente como Gigi, Sinhá e ocê, que acerta a mão e das veiz  também pisa na bola,como tudo mundo. Mas pelo menos nunca saíram por aí dizendo que eram melhores que ninguém nem arrotando grandeza de serem aparentados de Deus todo Poderoso. Nepotismo e metideza é coisa feia por dimais, que nem Sinhá nem a Pastora Gigi aprecia.


Na Vara Milagrosa vai tê muita cantoria, de preferência forrós bem animados. “Vale Tudo”, do Tim Maia, já tá decidido como o hino de abertura das reuniões. Vai ter dança tomém, e música ao vivo. Sinhá, que adora uma birita, vai ser a Guardiã do Nectar Sagrado. Na hora da comunhão ao invés de receber rodinha de farinha de trigo povim vai tomar é muito vinho, margaritas, mojitos, caipirinhas e outros sucos divinos para a salvação da alma e libertação da alegria. Amém!


Vixe, que essa Vara Milagrosa vai ser uma igrejim porreta, uma belezura de congregação, uma assembléia da alegria e da esperança.  Povim nem vai querer morrer causo de que o Paraíso vai ser aqui mes.

 

Te cuida, Edir Macedo!

 



 Escrito por Sinha Clementina às 22h24
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A LOJA NOVA DO SEU AMBLETO

E teve o dia que seu Ambleto falou que tava cansado de comércio, arreliado de carregar nas costas a padaria Nunca Gaste daqui da Camiranga, sem feriado nem dia santo. Já falei dela num causo nos antigamente da varanda, quem quiser lembrar pode clicar aqui. Di modos que ele mais dona Azeitonina largaram a padaria nas mãos das filhas e genros e foram pra Luanda d’Angola, dispostos a botar o burro na sombra e nunca mais se preocupar com a cor da chita. 


Compraram um bangalô na frente da praia, deitaram  numas redes e ficaram  no bem bom, balangando pra lá e pra cá, seu Ambleto apreciando as morenas da terra.


Mas machado acostumado com tora larga perde o fio rapidim se só encontra capim pra cortar. 


Num deu nem duas luas e lá estavam os dois aborrecidos com a falta do que fazer. Cumeçaro as implicâncias. Seu Ambleto reclamava da comida, da roupa, do vento, do sol, da chuva, dizia que o barulho do mar dava gastura. Azeitonina reclamava de tanta reclamação. E o comichão de encostar a barriga num balcão, ponhá o lápis detrás da orelha e contar o rico dinheirinho começou a coçar de novo nos dois.


Resolveram abrir uma portinha, vender mantimentos, fazia falta na tal vilinha. Procuraro o dono do cartório pa mode de abrir a firma. O homem teve um frouxo de riso quano seu Ambleto falou que a loja ia ter os sobrenomes dele e da dona Azeitonina. Era pra se chamar “ Armazém Aquino Pinto: Secos e Molhados”, ocês avalie que idéia de girico.


No começo seu Ambleto num entendeu, ficou arreliado quando o home falou que aquele nome não podia. “Ora pois pois, num pode por que óh pá?”


Levou  3 horas o home explicando e desenhando num papelzinho, mas inté quinfim  seu Ambleto teve uma presença de espírito e falou “ah ié?” Dona Azeitonina do lado só assuntava, sem mugir nem bugir, na força do hábito daquele casamento de quase 60 anos.


Um gaiato que trabalhava no cartório sugeriu “ Tremoços e Tramóias”  causo de que  tudo mundo sabe que seu Ambleto criou a fiarada carcando a mão na balança da padaria Nunca Gaste. O português subiu nas tamancas, chamou o gaiatista de “bagabundo” e ameaçou mostrar a força da mão grosseirona dele pros outros viventes que riram do piadista. 


O dono do cartório, cansado das poucas luzes do seu Ambleto que num vinha com nenhuma idéia, falou pr’ele ir pra casa, esfriar o bestunto. Quando tivesse um nome bom voltasse pra registrar a firma. “Vou deixar a papelada pronta e assinada, só falta batizar o armazém, depois se vê isso”.


Muito que bem, seu Ambleto concordou. Mas  saiu de lá nervoso, queria começar logo a trabalhar, num podia ficá sem abrir o empório só por causa do que o dono do cartório num tinha gostado dos sobrenomes deles. No meio do caminho Ambletão encontrou o Takeo, japonês que pinta as placas dos comércios daqui dessas vilinhas. Contou pr’ele do imbróglio e Takeo falou: xácomigo. Dia seguinte seu Ambleto inaugurou a nova casa, com a placa que o Takeo tinha inventado o nome.

 

                                                                                               

 

Sequóia, que vive passando por Luanda nas cumitiva dele, fez questã de bater essas fotos pa mode de mostrá pr’ocês. Sequoião é daqueles que mata a cobra e mostra o pau, e mes de longe num esquece dessa varanda, eitcha home danado de bão.



 Escrito por Sinha Clementina às 10h06
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UMA SAUDADE!

Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
Ninguém avisava nada, o costume era chegar de pára-quedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
- Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
- Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando- nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha - geralmente uma das filhas - e dizia:
- Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.
Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. 
Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão. 
Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
- Vamos marcar uma saída!... - ninguém quer entrar mais.
Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite...
Que saudade do compadre e da comadre!!!

Esse escrevinhado bonito quem me mandou foi cumadre Adriana, lá de Goiânia, que por sua vez recebeu de um amigo dela. Meu outro amigo de Goiânia, o Rogério Negão ( blog dele tá na lista daí do lado) me disse que o autor dessa maravilha é o professor José Antonio Oliveira de Resende, de uma universidade de Minas Gerais. Parabéns pra ele.

Achei tão bonito, encaixando tão direitim aqui na minha varanda, que resolvi dividir com vocês, causo de que essa saudade tomém é minha.

Lembro com saudade de um banco de madeira que meu avô, pai de minha mãe, colocava toda tarde na frente de nossa casa, na calçada, e onde os vizinhos vinham sentar e bater papo, dividir as alegrias e a carga triste da vida que todo mundo carece de carregar. Aproveitar o frescor da noite, o cheiro do manacá, daquela plantinha perfumosa, a dama da noite. E as crianças brincavam descalças ali em volta: de esconde- esconde, amarelinha, passar anel, adivinhações, pular corda, cabra cega. Não se falava em pedófilos, perigo que tinha era alguém se resfriar com o sereno, imagine!

"Menino, vem lavar os pés, sai do sereno". Também ouvíamos todo dia: menino, respeite os mais velhos, a professora, cumprimente a visita, cadê seu obrigado, seu por favor?. E obedecíamos. E ai daquele que não obedecesse, o couro cantava. Parece que hoje em dia nem sereno tem mais. Também sumiram os vagalumes, que pra mim eram uma diversão e um deslumbramento, poesia viva flanando na noite escura.

Cantávamos cantigas brincando de roda, todos de mãos dadas. Criança de hoje nem sabe o que é roda, só conhece a dos carros, que atropelam. Noite de calor passava um sorveteiro e era uma festa receber um picolé de Ki-suco, caseiro e contaminado, mas delicioso, porque era compartilhado. Passava também gente vendendo cocada, quebra-queixo, um sorvete cremoso de milho verde e bijous esfarelentos que eu daqui da Camiranga chego a sonhar que estou comendo novamente. E acordo salivando, a boca também reclamando com uma saudade que é fome insaciável, sede que não tem o que dê jeito.

                                                   

Podem me chamar de antiquada, saudosista, velha coroca, vai ver sou isso mesmo. Mas tenho saudade daqueles tempos em que as pessoas pareciam mais reais, humanas e ligadas umas as outras. E os prazeres eram simples, mas suficientes. "O homem tá ficando seco feito um sapo seco" diz o poeta Thiago de Mello. E tenho que concordar com ele.

Beijim pr'ocês!

 

 



 Escrito por Sinha Clementina às 09h53
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PRICASSO E SEU PINCEL

Dia desses Sinhá leu um causo na Internet que me deu inté gastura. Mostrei pro Sequóia e ele tomém ficô besta, de queixo caído. Ocêis avalie que tem esse sujeitim pros lados de lá da Fazenda Austrália que vive com a brocha na mão. Ele é pintor, mas num é de parede não bobão. Acho que foi pr’elezim que inventaro aquela musiquinha que fala ansin “ninguem pinta como eu pinto”, que o povim safado canta rapidim e parece que tá falando “ninguem pinta com o meu pinto”.


No caso do sujeito os dois versinhos tão certo. Causo de que ele é o único pintor do mundo que usa como pincel a gurumbumba dele. E pra retocar os quadros ele tasca a bunda lá. Faz feito a Maria do fado, arrebita, arrebita e arrebita, mistura as cores e tá pronto. Num sei como ele faz, mas é uma coisa impressionante que só ocês vendo mes. Nomezin dele é Tim Patch, mas o povim lá donde ele mora já ponhô nele o apelidim de Pricasso. E o talzinho ganha a vida  ansim, mergulhando a gurumbumba dele nas tintas e dispois lambuzando as telas.


E pinta bem o danado, é capaz de fazer o retrato de quarqué vivente que tiver coragem de ficar na frente dele. Pinta na casa dele, na rua, nos mercados, em festas. Diferente de tudo os pintores famosos ele num usa avental não, só uma gravatinha borboleta cor de rosa, umas botas prateadas e um chapéu com o nomin dele escrito na frente. O Nilson Manuel, o alfaiate daqui da Camiranga que é fã dele, disse pra Sinhá que tudo que o pintor usa é da grife MVI, mais viado impossíver. Outrozim que adora usar essa grife é aquele Walter Mercado, que falava ligue djá, ocês lembra dele?


Pois intão, o Pricasso pinta tomém pela Internet, em feiras, de noite, de dia, na chuva, em pé, sentado, com ele num tem tempo quente. Parece mercador judeu, faz quarqué negócio. Já viajou o mundo, apresentando a arte dele. Inté no Brasil ele já foi. E parece ser um cabra bonzinho e paciente, que num se importa de ensinar o que sabe pra quem tem vontade de aprender, mesmo com o talento reduzido. Falo isso causo de que inté aula pra aluno japonês ele já deu. Ocês num acredita? Tem o vídeo lá no site dele, pra quem quiser ver. Inté que o primo do Takeo Pariu daqui da Camiranga num fez tão feio, considerando que a gurumbumba dele era menorzim.


Falá a verdade pr’ocês fiquei inté com pena do pobrezin do Pricasso imaginando como no final do dia o pincel dele deve de tar vermelho, ressecado e machucado, de tanto esfregá nas tela. Tomém me pus a pensar que o sujeitim deve de tê muita saúde. Imagino que ele carece de ficar meio engatilhado pa mode de podê trabalhá, causo de que em repouso absoluto imagino que o pincel num funciona. Sabe lá o que é isso? Ficá pronto pra tudo, na frente de um bando de gente, só de gravatinha borboleta, chapéu e bota prateada, com o traseiro tomando fresca e esquentando a cabeça, pintando um retrato atrás do outro? Tem que ser muito macho isso sim.


Sinhá gosta de novidade, mas nesse particular falei pra Sequóia que sou mais a minha comadre Luciana Mariano, pintora de muitos talentos e variados pincéis. O Pricasso que me perdoe, mas Sinhá num ia gostá de ter minha figura feita a golpes de gurumbumba e retocada com a bunda. Sem contar que o cheiro da obra num deve de ser coisa boa.


Agora, por outro lado, adorei vendo ele esfregar o traseiro magro dele na cara do retratim do Bush, aquele cabra safado. Naquela hora ele virou meu ídalo. E a figura do outrozim maluco que explodiu aqueles prédios pra lá de Deus me Livre tomém tá engraçada por dimais. O Tinzim é meio desparafusado das idéias, mas é talentoso, disso num tenho dúvida.

 

                                                                      


Daqui da Camiranga, deitada na minha rede, fico sabendo dessas novidades e me dou conta que Pinheirão tinha razão, quando dizia que nesse mundo tem de tudo e ainda sobra. E penso tomém o que um vivente num faz pra sobrevivê num é mes?


Querendo conhecê o blog do pintorzim clique aqui



 Escrito por Sinha Clementina às 17h14
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