Tava onte sussegada na varanda, discansando na minha rede, me chega Elizeuda, esbaforida, com uns papelzinho na mão. Falou ansim:
“Sinhá, esse mundo tá revirado. Óia quem vem pra Camiranga: a cartomante herege, a bruxa que fez aquele rebosteio lá em Deus me Livre. Os minino do Mistronguinho tá pregando essa papeleta em tudo quanto é poste”.
Fiz cara de surpresa e logo dispachei Elizeuda, que é assustada, quarqué titica de galinha deita água pelos zóio achando que é o fim do mundo. E pra mar dos pecado num apricio gente faladeira, linguaruda, ocês me cunhece, ocês sabe.
Pra falá a verdade fiquei foi cuntente, já tava cum sodade da Zoraidinha. E da amiguim dela, a Babevê. Cumadi Márcia Villela já tinha me falado que elas tinha vortado e tavam fazendo a vida nas vilinha da redondeza.
Muié de muitos mistérios Zora Zoraida fez fama e fortuna em Cudumundópolis.
Povim de lá acredita que elazim tem poder pra curá de unha encravada à boiolice. Tem quem jure que ela faz nascê cabelo em careca e pra desencalhá véia donzela num tem inguar.
Ocês espera aí que logo vem um causo delazin, Sinhá vai passá um café e já vorta.
Desquieu cumecei a me aventurá nas vereda do virtuar fiquei apaixonada por essa tar de Internet. Que invenção mais maravilhosa num é mes? Esse trem de emeio então, muito mió que as carta antiga do correio, que levava uma encarnação praí e outra pra vortá. Fora as que se perdiam pelos caminhos.
E o tar do gugol então? Esse tarzinho tem sabedoria pra mais de metro, tudo o danado sabe. Ocê pergunta pr’elezin quarqué coisa, inté qualéquié o sentido da vida, e ele te devorve, mais rapidim que um raio, um monte de resposta. Argumas sem quarqué serventia, besteira pura, mas nas cunversa com os vivente de carne e osso isso tomém num acuntece? A vantage é que no tarzinho do gugol ocê pode mudá de página e deletá. Enquanto dos vivente falando asneira nem sempre dá pra se livrá tão fácir e rápido.
Agora, se tem uma coisa que deixa Sinhá danada, mais brava que siri na lata de água quente, é essa gente que num tem o que fazê e fica mandando emeio besta. Purexempe: dia desse mes chegô um aqui falando ansim: ocê qué vê quem gosta mais d’ocê, se é sua muié ou seu cachorro? Prende eles dois no porta mala do carro e dispois de uma hora ocê abre, pra vê quem vai ficar feliz de te vê de novo.
Premeiro que além de num tê o que fazê o abestado inda é burro. Tudo mundo sabe( ou divia sabê) que cachorro num guenta ficá em carro fechado, com muito calor e sem ar a vontade. Num demora nem meia hora pro bicho batê com a caçuleta nessas condição. Inguar criança pequena, que tomem morre de desidratação rapidim se ficá presa num carro quente sem ar ventilando.
E alías, isso já acunteceu bastante, e gerarmente quem esqueceu o pobrezim preso no carro foi o pai, causo que é raro mãe esquecê das crias. Inté acuntece, mas ocês pode botá reparo que gerarmente é home que causa essas tragédia.
Di modos que respondendo o emeio do atrevido escrevinhei ansim pr’ele: “ô besta. Dispois de uma hora preso dentro do carro o cachorro vai tá morto, durinho da sirva, inté fedendo. A muié vai tá possessa c’ocê, si ela tivé argum recheio que preste no bestunto. E dispois de se refrescá e tomá uns copão d’agua, ela vai ficá muito feliz é te dá uma paulada na caixa de câmbio pa mode d’ocê fica prejudicado e nunca mais se atrevê a martratá muié e bicho”.
Otra qualidade de emeio que deixa Sinhá sortando fumaça pelas venta é esses falando de anjo da prosperidade, da saúde, da boa sorte, da ponte que caiu. Ou falando que Nossa Senhora passou por aqui, com seu cavalinho cumendo capim. E eu cum isso? E tem ainda aqueles dizendo que se ocê num passá pra frente tudo as besteiradas escrevinhadas arguma coisa muito ruim vai acuntecê pr’ocê. Já num basta tê recebido aquele monte de asneiras e ainda vem mais coisa ruim a caminho? Afinar, isso é um emeio ou uma ameaça?
Otro tipo de mensage que deixa Sinhá maluca é daquelas criatura que nunca arranja um tempinho pa mode de te mandá um emeio perguntando como ocê tá, quais são as novidade e as velharia na sua vida. Tem vivente que só sabe repassa as besteira que eles recebe de outros abestados, achando que cum isso eles tão curtivando a amizade c’ocê. Agora intão que tá chegando época de Natal e Ano Novo cumeça chegá essas tranqueira aos monte, pelo computadô e inté pelo correio normar. Amizade num é isso não gente. Amigo de verdade qué sabé se ocê tá feliz, se ocê tá triste, se ocê carece de desabafá argum perrengue. Não lembra d'ocê só nessas data, lembra d'ocê sem tem motivo argum, só o da amizade mes. Amigo de qualidade é verdadeiro c’ocê e tem um interesse genuíno pela sua vida. Inté pra te falá coisas que das veiz ocê nem vai querê muito ouvi ou lê, mas que são escrevinhadas ditadas pelo amor e pela franqueza misturada com carinho e atenção. Todo o resto, ocês pode acreditá nessa Sinhá, é arremedo de amizade, coisa sem valor feito dinheiro farso, superficialidade besta que merece ser dispensada e deletada, sem dó nem piedade. E tenho dito!
Dona Hirda era uma japonesa que foi vizinha de Sinhá e Sequóia nos antigamente.
Ela era meio aparentada do Takeo.
E assucedeu que dona Hirda ficô viúva. Ela tinha lá uma religião que dizia que devia de fazê um artar pro morto na casa e tudo dia devia ponhá uns pratinho de comida e bebida pro finado, pa mode de cuntinuá alimentando o espírito delezin. E ela fazia isso direitinho, cunversava com o falecido, acendia vela pr’elezin, parecia inté que o pobre cuntinuava vivo.
Nunca que Sinhá entendeu essa prosa da vizinha, mas o finado era dela, ansim como as comida e bebida, cada doido com sua mania num é mes? Como diz minha cumadi Clarinha, “nada respondi porque nada me foi perguntado” inguar os escrivão de delegacia escreve nos Boletim de Ocorrência.
Di modos que todo dia Hirda passava o café e ponhava a xicrinha do finado no artar. Dispois mais tarde vinha um pratinho de angú, uns pedaço de rabada. No meio da tarde mais café e uns biscoitinho de nata, a noite uma sopinha, cada veiz que ela cumia o finado tomém recebia quarqué coisa. Um belo dia Hirda teve um piripaque, baixô lá no postim de saúde.
Doutorzin que capô Mistronguin e encanô os vento da Maria Formiga atendeu elazin. E Hirda saiu de lá entupida de remédio e com uma dieta braba, cheia de num pode isso e nem aquilo e nem aquiloutro. E por ordem do doutorzin ela passô a medi as ruas da Camiranga, batia perna o dia inteiro, das veiz se animava e ia e vortava da Coxaminga.
Passô inté a corrê. Com quase 70 anos elazin discubriu que gostava de fazê exercício. Ponhava uma conguinha branca, seu chapéuzinho na cabeça, e lá ia a japonesa, correndo naqueles passinhos miudínhos dela.
No deslumbramento dessa nova mania a vizinha esqueceu do finado.Um dia tamos Sequóia mais eu no mercado do Polido encontramo com Hirda, saindo dos fundos da loja carregando uma caixa grande de papelão, vazia.
Perguntei pr’ela ansim: “vai mudá cumadi?”. E ela, muito séria: non, eu cuntinua na mesma casa né? Quem vai mudá é marido. Marido vai vortá pra Japon, visitá os parente dele né?”. Nós entendemos que ela ia dispachá pro outro lado do mundo o artarzinho com o retratin do finado e os pratinho de bebida e comida que tudo dia ela ponhava lá.
Sequóia, que num perde uma piada, piscô os zóio pr’eu e deu corda na vizinha: “mas por causa de que? Um casamento de tantos anos, tão feliz, o que foi que acunteceu?”.
E ela: “marido num custumô com nova dieta né? Retrato dele cada dia ficando com mais cara de brabo. Marido se ficá aqui vai levá Hilda pra buraco mais cedo. Filho mais velho acha melhor dispachá ele pra irmã dele mais nova tomá conta”. E dito e feito. Uns dias dispois tamos na varanda e vimos saindo da casa da vizinha a tal caixa grande, com o artar montado lá dentro. Caminhão já tava inté andando quano sai Hirda correndo de dentro da casa, banando os braço: pára, pára, pára. Tinham esquecido o retratin do falecido.
E quano eu vi a cara do finado seu Shigueko, inté concordei co’a vizinha: marido com cara feia feito aquela ieu num ia querê na minha casa nem dispois de morto. Já foi é tarde pra Japon.
Sinhá tem uma prima distante, por sinal tomém chamada Clementina. Prima Clementina fico viúva muito cedo, com três bacuri pra criá, e o jeito que ela arrumô pra fazê isso foi vendê ovo. Cumeçô com galinhas, dispois ela arrumou patas, codornas, inté avestruz. Povim que carecia de quarqué qualidade de ovo pudia ir lá no sitio de prima Clementina que si ela num tinha ela sabia onde arrumá.
Muito pobre, sem condição de tê cavalo pra puxá carroça, prima inventou um jeito de levá uma quantidade maior de mercadoria pra vendê. Arrumou uma vara de bambu comprida e grossa onde com uns ganchos ela prendia as cestas de bambu trançado. Num falam que o sapo não pula por boniteza, mas por precisão? É verdade mes, da legítima.
Dentro das cestas ponhava jornar e pó de serra pa mode dos ovo num quebrá no bate bate do caminhar, ou embruiava os ovo em casca de milho. E lá ia a prima pelos caminho vendendo aquele monte de gemas e claras dentro daquelas casquinha fininhas. Ocês já pararam pra pensá que coisa mais linda dessa vida que é um ovo?
Coisa mais perfeita, elegante, desenho, forma e função tudo encaixado direitinho. Parece fraquinho e é mes. Mas deixa ele quieto, quentinho, aconchegado nos escondidos da galinha e ocê tem a surpresa e a beleza do pintinho. Ou dos patinhos. Por debaixo daquela casquinha fininha tem a fortaleza da promessa da vida, misteriosa, misturada naquela gosmeira toda de claras e gemas.
Deve de sê purisso que tudo nessa vida, inté nóis, os humano, tudo cumeça na forma de um ovo, causo de que é uma idéia linda por dimais. Dispois caba essas tranqueiras feito o delegado Cardia e o safado do Takeo, e vira tudo outros 500, mas tudo mundo cumeça lindinho e perfeitinho, feito um ovo. Hoje Sinhá tá meio poetando, deve de sê sardade do Pinheirão.
Mas vortando ao causo: prima Clementina tinha experiência, fazia isso pra mais de 10 anos, já tinha freguesia certa. Seu Ambleto mesmo comprava ovos dela pa mode de fazê os pães e doces lá da padaria Nunca Gaste dele.
Um dia prima ficô doente, uma gripe braba, num pudia saí da cama pra vendê ovo nenhum. Mandou o fio mais véio . Na época Pedro era um rapaizim, ansim nos seus 16 anos. Magrim que era vê um caniço, uma vara de pesca era mais encorpada que ele. E pra chegá na Camiranga Pedro ia tê que atravessá um corguinho, que quando chuvia ficava mais encorpado de água.
Chico Sequóia nesse dia tava no sítio deles cunsertando um teiado e ouviu quando prima Clementina, mãe amorosa, avisou o fio pra tê cuidado:
“Pedro, na hora de cruzá o corguinho, ocê num esquece: uma mão na vara e outra nos ovo”.
Já falei pr’ocês que das veiz Sinhá tem umas cismas, fica pensando numas coisa sem muito pé nem cabeça. Num sei se tudo os vivente passá purisso, mas o causo é que tem dia que Sinhá tá inda mais atacada e quarqué coisa que Sinhá vê ou lê traiz umas idéia meio amalucada no meu bestunto.
Purexempe: treizantonte mes fui visitá o cafofo da cumadi Arzira, enfermeira porreta, arretada, com instrução pra mais de metro. Elazin é muito mió que o doutorzin lá da Camiranga que capô o Mistronguim e inzaminô o ás de copas da Maria Formiga.
E no tar cafofo da cumadi Sinhá aprendeu umas coisa que nem sabia que existia nesse mundo cheio de tudo. Imagine ocês que inventaro um apareinho, um tar de “plug anal” pa mode de ajudá os vivente que já num tem mais o controle lá da caixa preta deles. Arzira, que tomém é professora das boa, exprica direitim, vale a pena ocês lê direitim pra tomém fica menos gonorante.
Tem gente que pensa que o umbigo é onde foi dado o ponto finar, lá quano Deus ou sei lá quem criou os home macho e as muié fêmea. Foi não, bobão. Sinhá é de opinião que o ponto finar foi dado mais embaixo e atrás. Causo de que basta o vivente tê um perrengue lá no estreito de guimarães pra sabê que tudo tá ligado lá. Vivente que tem morróida, ou um furúnculo, um pêlo encravado, quarqué perrengue naquela parte pudenda fica sem pudê fazê quase nada. Nem sentá, nem ri, nem falá, inté pra respirá o cabra sofre, causo de que parece que tem uns fios invisívers ligando os otro ponto do corpo tudo lá naquela zona de convergência.
Di modos que o tar do “plug anal” que a cumadi Arzira expricô serve pa ajudá a diminuir os perrengue e os acidente daqueles pobrezin que por causa de arguma doença já num dão conta de mantê a contabilidade em dia. E o negócio é tão bem feitinho que o vivente que tem que usá o tar do plug cunsegue eliminá os pum sem tê que tirá o apareinho do lugar.
Premeiro Sinhá ficô admirada com essa nutícia. Dispois Sinhá fico matutando que os cientista podia dá uma meiorada nessa idéia maraviosa. Eles devia era de ponhá um tipo de um filtro no tar do plug pa mode do vivente num polui o ar com cheiro ruim. Num tem filtro nos cigarro? Pois então, devia de sê coisa parecida. Na verdade, eles devia era inventá um jeito do tar filtro perfumá o pum e o vivente só sortá vento cheiroso.
Ocês já pensô, que belezura que ia sê esse mundo, com essa invenção? Quantos casais num ia mais brigá na cama, embaixo das cuberta, em noite de frio? Quanta mãe de premeira viage num ia ficá de estomo revirado quano o bebezinho cumeçasse a carreira de peidador jurado e sacramentado? Quanto anãozinho num ia mais dismaiá dentro dos elevadô, quano o vivente na frente deles sortasse um vento daqueles de murchá roseiral? Anão peleja dimais da conta sô. O Tachinha, sapateiro da Coxaminga, das veiz vem aqui na minha varanda e fica chorando as pitanga, dá inté pena, causo que esse povim sofre que só ocês vendo mes.
Desquieu aprendi sobre esse tar de “plug anal” as idéia num pára de brotá aqui no meu bestunto. Acho que podia inté sê uma invenção que iria miorá a qualidade da vida no praneta inteiro, contribuí pra cabá com esses desastres ecológicos, que eles vive falando na televisão, aquecimento globar e coisa e tar. Pudiam fazê uns modelo pros bicho tomém, pras vaca, os cavalo, os bode. Ocês avalie: tudo esses bicho sortando pum no mundo, num tem camada de ozônio que aguente!
Era inté capaiz de ajudá o Brasir saí do buraco. Podíamos virá exportador de plug anal pro resto do mundo, muvimentá nossa economia, dá emprego pra um bando de gente.
E fazê os plug de acordo com os gosto dos fregueiz: os gringo mericano, que adora uma coca cola, ia tê o plug com esse cheirinho; pros mexicano, cheiro de pimenta; pros baiano, cheirim de vatapá e acarajé, pros alemão cheiro de repolho que eles adora. Pensando bem, mió num vendê prus alemão não, deixá aquele povo pra lá. Mas, enfim, ocês entendero num é mes?
Ia miorá inté a qualidade dos transporte púbrico, especiarmente nos trem que avoa. Na hora de entregá as sacola de viagê lá no barcão o povim já ganhava, como cortesia, o plug anal, com filtro cheiro de frôr, pa mode de sê uma viage agradáver pra tudo mundo. Os que ia viajá pra França já pudia tê os modelo com aqueles perfume bom dimais da conta que eles fazê pur lá. Óia, sem querê me gambá, mais acho inté que vou patenteá essa minha idéia, antes que argum aventureiro o faça, inguar o Dom João falou nos antigamente pro fio dele, o Pedrinho
Esse causo quem me contô foi Nestor, que a vida inteira foi advogado.
E diz que quano ele morava bem pra lá de Deus me Livre, numa vilinha nos interiorzão do Vale do Jequitinhonha, um dia foi procurado por um sujeito cujo pai tinha morrido. Só que antes de batê com a caçuleta o véio tinha falado ansim:
“Raimundo, nas minha andança por esse mundo eu pulei a cerca fio, e cabei tendo uns par de minino com umas donas. Agora que eu tô no fim carece d’ocê avisá esse povo e dá pra cada uma delas um adjutório, pa mode dos minino istuda e aprende o be a bá”.
Raimundo contratô Nestor pra visitá as donas e os bastardinhos, deu pr’elezin uma caderneta com tudo os endereço. E Nestor cumeçô a romaria. Na primeira casa encontrô uma dona gordona, de patrimônio peitoral e bundoral bem desenvorvido, um cabelão pichain armado e um mininin chamado Raimundo. Deu a nutícia, deu o dinheiro, fez a dona assiná uma papelada pr’ela num aburrecê a famiage do véio com nenhum outro pedido e prosseguiu viage.
Na segunda casa fez a mes coisa, de novo o bastardinho chamava Raimundo.
E na terceira, na quarta, na quinta, na sexta, tudo inguar. As dona era tudo parecida, gorda, tetuda, bunduda, e cada bichim tinha o mes nome do fio legítimo, o Raimundo que tinha contratado o Nestor. Nome e sobrenome.
Nestor já tava arreliado com aquela história, achando que o véio, além de sê um safado que saiu pelo mundo fazendo bastardos, inda era um burro, sem imaginação, causo de que repeti o mesmo nome em tudo os fio dele era coisa que nunca cumpadi Nestor tinha visto.
Na úrtima casa Nestor chegô e viu duas criança, um casal de gêmeos. Pensou ansim: inté que infim, gêmeos, pelo menos arguma coisa ele fez diferente. A dona, mãe deleszin, num tava em casa e Nestor pediu água, sentô embaixo de uma árvore e fico esperando.
Os gemeos ali do lado, só assuntando ele.
Di repente, pa mode de puxá assunto, Nestor perguntô pro menino macho qualéquiera o nomim dele. E o bichim arrespondeu: Raimundo.
Daí Nestor cansado, encalorado, danou-se a falá mar do diabo do véio, resmungá lá com os botão dele mas falando arto, desabafando mes de tão enjoado qu’ele tava daquele sirviço. E de tudo as dona parecida, bunduda, tetuda, cabeluda, e de tudo os minino chamá Raimundo. E danou-se a chamá o véio finado de energúmeno,de néscio,de cabeçudo, bestunto manco, e mais um monte de palavrão que os advogado sabe. Mandô o finado pra ponte que caiu, falô ansim que ele devia era de tê vergonha de tê espaiado tanto raimundo pelo mundo.
Desabutuo a camisa, rancô a gravata, tirô os pé pra fora do sapato, as meia, fazia um calorão daqueles de deixá quarqué vivente zureta e Nestor cuntinuô no discurso dele, falando suzinho, mas brabo, irritado mes e remedando com boca mole: como ocê chama mininim? E ele mes arrespondia : raimundo, raimundo, raimundo, deuzolivre sô, vai gostá desse nome ansim lá nas profunda dos inferno.
E dispois desse desabafo que durô uns par de minuto, Nestor viu que os gêmeos cuntinuava ali do lado, os zoinho estatelado, di certo achano que aquele home era meio zureta das idéia. Nestor então resorveu arriscá, falô ansim pra menininha fêmea que parecia uma saguizinha, miudím, escurin: e ocê, como é sua graça?
A bichinha chegô a abri a boca, mas tomô uma cutuvelada do irmão que falô ansim:
E teve um inverno que trouxe muita chuva aqui pr’essas paragens. Um dia deu inté uma tempestade de granizo, coisa feia de se vê. Caiu tanta pedrinha de gelo do céu que furou tudo os teiado das casinha mais pobre. Inté a ingreja matriz ficô prejudicada, com goteira dando banho nas image dos santos lá do artar.
Padre Cândido decidiu fazê uma quermesse, pa mode de recoiê dinheiro e cunsertá os estrago. Chamô as beata, ficaro matutando como pudiam tirá uns baguá do bolso do povim, além do dízimo e das oferta da missa dos domingo. E resorverô que o jeito era fazê um espetáculo de canto e dança, um chou de talentos, do tipo dos programas que passa na televisão. Mas tudo dentro dos conforme, sem bunda a mostra e senvergonhice, causo que era uma sessão familiar, de respeito.
Originalda, com a belezura dela, foi escoida pra ser a presentadora das atração. Montarô lá na frente da matriz um palanque, fazendo as veiz de parco, e ponharo um monte de banco e cadeira na praça pa mode do povim sentá e apriciá. Sequóia mais ieu fumo tomém e foi uma noitada daquelas pra ficá na memória, causa de que a Dadivosa, muié do Zé Corno, resorveu participá. E ela sarvô a noite.
Inté a chegada delazin o chou tava bem chochinho. Teve lá o jogral dos minino, falando da pátria, do Brasil varonil. Dispois veio uma beata feia, coitadim, cheia de cachinho na cabeça, um vestido de Maria Mijona, sapato preto e meia branca com rendinha na batata da perna fina dela, recitando uns versinho bestinha que só ocês vendo mes. Rimando pão com coração, espinho da flor com dor e outras bestage desse tipo. Uns violeiro tocaro umas modinha, Thiaguim da Ciça tocou seu trombone e povim tava disacorçoando, batendo parma cada vez mais fraco. Padre Candido tava tristim, achando que os santo lá dele ia tomá muita chuva inda.
Inté que subiu ao parco a Dadivosa. Já contei pr’ocês que Dadivosa é muié dadeira, casada com o Zé Corno, que carrega uma galharia enorme na cabeça e nem se importa. E justamente naquela época tinha mudado pra Coxaminga um rapaizin muito bunitim, novinho, na flor da idade, estalando no vigor dos 20 anos. E ele era ajudante do açougueiro lá. Dadivosa tava de olho nelezin, querendo cunferi se ele sabia mesmo mexê com carne, se tinha mes um facão afiado, se sabia mes equilibrá o fio da balança.
Di modos que ela subiu no parco toda arrumada, véu em vorta do pescoço, frô nos cabelo tingido de loiro, um vestido azulão grudadim no corpão abundante dela. Carmim nas buchecha, batom na boca arreganhada num sorrisão de dentifrício, os zóio se derramando cumpriiiiiiido em cima do açougueiro. Zé Corno todo orguioso, batendo parma, sastifeito que tudo as homarada da praça tava apriciando a senhora dele.
Quano Originalda perguntô qualéquera o talento dela foi uma risadaida só, povim cumeço a assubia, uns home cumeçaro a mugi inguar vaca. Padre Cândido deu umas limpada na garganta, já ficando brabo, pa mode da coisa num discambá ali mes. E Dadivosa falou então que ia cantá uma ópera, acumpanhada de um sujeitim que tocava uma rabeca. E falô que era uma homenage ao mais novo habitante da Coxaminga, o tarzinho, ajudante do açougueiro.
Ocês cunhece aquela ópera daquele italianim, Rossini, que fala ansim: Fígaro...Fígaro....Fígaro cá....Fígaro lá...la la la la la lalalalalalalalala Fígaro, Fígaro?
Poisintão: foi essa mes que ela cantô. Só que ela fez uma dapitação e ficô uma coisa mais ou menos ansim:
“Antes d’ocê Na Coxaminga chegá Minha vida era só galinha cuzinhá
Pega a penosa Torce o pescoço Joga no chão espera estrebuchá
Tira do chão taca na tina água fervendo pras pena arrancá
la la la la, la la la la, la, la
E tome asinha, peito e coxinha pescoço e moela, galinha cabidela
Quano a penosa tava no fim com milho e arroz inda fazia uma canjim
la la la la, la la la la, la, la
Mais grazadeus ocê chegô pa minha dieta enricá já num guentava mais tanta penosa assassiná
E agora ando feliz sastifeita a num mais podê causo que lagarto e alcatra alegra meu vivê
Tome picanha lingua e maminha sua facona corta em tirinha
Acém e filé, costela e linguiça vaca é proteína, coisa boa, dilícia
Ajeita a balança corta o acém pesa o patinho retalha o rabin
Vira a picanha pica o cochão do mole num gosto prefiro o durão
E além disso num posso esquecê dos rins, dos miolo e do bifê rolê
e do fígado, fígado, fígado fígado cá.... fígado lá fígado lá fígado cá la la la la, la la la la,
Fígado, fígado, fíiiiiiiiiiiiiiigaaaaaaaaadddddddoooooooooooooooo! La la la la la la la la la la la la la Fíiiiiiiiiiiiiiiigaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaddddddoooooooooooooooo! e o rabequista fazia a rabeca gemê e meio que dançava no parco, tomém entusiasmado com a música.
Dadivosa cantô com o coração, parecia inté que tinha engulido uma estrela, ela brilhava lá no parco. Quano ela acabô povim ficô um minutim quieto, de boca aberta, uns inté deixaro cair no chão os cachimbo, com o espanto. Dispois foi um aplauso que inté lá na vilinha do Curuça escutaro, inté sortaro foguetório e tudo. Povim cumeço a jogá moedim, as homarada assubiá pra Dadivosa, que se abaixava recebendo os aprauso e deixava bem a mostra as teta dela. Foi uma festa, Padre Candido e as beata gacharo no palanque e trataro de recoiê as moedin.
Dadivosa inté chorô de emoção, deu um abraço apertado e demoraaaaaaaado no açougueirim, Zé Corno todo cuntente do lado, recebendo os cumprimento pelo talento da senhora dele. Quem ficô arreliado foi o Alípio, que viu que ia tê mais um sócio na divisão das abundâncias da Dadivosa.
Nessa noite Sinhá tava com uma visita em casa, uma pintora com talento pra mais de metro, chamada Luciana Mariano, que ficô tão impressionada com o que ela viu que inté pintô o quadro da Dadivosa, esse aqui dipindurado na varanda. Veja ocês se num é uma beleza dum retratim?
Um belo dia o Arnaldinho Olho Vivo, dono da rádio, entendeu de fazê um concurso de miss aqui nas vilinha da redondeza.
Tudo as donzela novim resorverô participá do tar concurso, as mais bonitinha. E assucedeu que Originalda virô a Miss Camiranga, causo de que ela é formosa mes. Uma pele de porcelana, boca bem feita, uns zóio esverdeado e agateado, cabelão jeitoso, e um corpão que mais parece um violão. Daquele tipo de muié que faiz os home perdê o rumo das cunversa e ficá meio bestificado, de zóio e boca aberta.
Arnaldinho e o Ferdinando, político da Coxaminga, mandaro Originalda pra Belrizonte, cuntinuá enzibindo a belezura dela em outras cumpetição de miss. Povin da Camiranga tava tudo prosa, orguioso, que elazin pudia inté virá Miss Minagerais, tarvez inté Miss Brasir.
Mas pra trilhá os caminho da glória do estrelato carece de tê mais que belezura. Carece de tê corage e opinião pr’aguentá uns sufrimento que só muié doida mes dá conta.
No tar concurso lá de Belrizonte tinha uma tar de Madama Pompadú, uma gringa meio da metida, que dava lição de tiqueta pras mocim mais chucra. Ensinava disfilá na passarela trançando as perna, inguar qu’elas tivesse com a bixiga cheia e tinha que rebolá pra num deixá o xixi iscapa. Ensinava tomem elas comê usando garfo ao invés de cuié, num palitá os dente na mesa e aprendê dizê que “O Pequeno Príncipe” tinha sido o livro mais bonitim que as belezura tinha lido. Aquelas que sabia lê, que num era o causo da Originalda.
Na véspa da noite do desfile Madama Pompadú mandô Originalda na sala de uma tar de Cleonice,isteticista, pa mode de fazê uma depilação caprichada, causo de que tudo as mocim ia disfilá de biquini e carecia de tá tudo nos conforme lá dos regulamento do concurso.
E assucedeu que a tar da Cleonice ponhou Originalda numa maca, marrô um barbantinho nos lado da calçola dela e deu um nó, puxando os pano pro meio e deixando cuberta só uma tirinha lá da periquita delazin.
Morreno de vergonha, c’oas perna arreganhada, Originalda tava assustada, nunca tinha feito aquilo, mas Madama Pompadú tinha dito que carecia de fazê e ela sempre tinha sido uma mocim obediente. Inté ficô cum medo de tá doente sem sabê e de perdê a belezura dela se num fizesse o tar tratamento istético. A gringa devia de sabê mió dessas coisa, ela pensô. Pobrezin pensou errado.
Dispois ela contô que sentiu ansim um calorzinho, parecia que Cleonice tava besuntando lá os escondido dela com um unguento quentinho. Originalda tava inté apriciando o tratamento quano sentiu um puxão violento que rancou pela raiz tudo os cabelinho lá da perseguida dela.
Cleonice era rápida, repetiu um par de veiz o tar tratamento: premeiro a cera quentinha, pa mode de grudá nos cabelinho. Dispois o puxão violento, que rancava sem dó nem piedade não só os pelinho da perestroika e do estreito de guimarães lá da Originalda, mas tomém a fala dela, a vontade de enzibi a belezura dela pro povin apriciá.
Pobre da Originalda disacorçoou das idéia. Entristeceu. Quano tudo acabou saiu da maca da Cleonice e foi andando co'as perna aberta pelos corredô do hoter donde que as mocim tava se preparando pro concurso .
Com os escondido dela vermeio, inchado, ardendo mais que pimenta malagueta, Originalda andava tar e quar a Chita do Tarzan. Cumadre Nana, de Goiânia, tava no tar hoter e viu. Excrusive foi ela que contô esse causo da vida alheia e fez eu e o Sequóia ri muito, vendo ela imitá a pobrezin .
Meio do caminho a miss da Camiranga cruzô com Madama Pompadú. Di repente a humiação e a dor que ela tinha passado nas mão da Cleonice isteticista virô foi uma reiva tremenda de tudo os vivente desse mundo, especiarmente dos que inventaro e dos que recomenda esses tratamento dolorido da moléstia. Originalda garrô a gringa, jogô elazin no chão, sentô em cima dos peito mucho da madama e danou-se a rancá os cabelo da cabeça dela, sem unguento quentinho nem nada.
No muque mes...enquanto dava uns supapo bem dado naquele nariz empinado, naquele pescoço de pele branquinha, fininha e enrugada que era inguar vê o papo desses frango de granja. Inda gritava ansim “ isso é por tê me tirado a cuié, o angú, a farinha de mandioca, o feijão tropeiro, sem falá nos pelinhos da pichoca, sua gringa metida, pode ir ocê mais o seu pequeno príncipe pras profundas dos inferno” e desceu o cacete na madama.
Foi expursa do concurso, acusada de insana, vortou pra Camiranga depilada mas vingada. Dispois povin inda ponhôu nela o apelido de Comichão, causo de que a pobrezin vivia se coçando quano começou o reflorestamento na área devastada pela cera quente e as mão experiente da Cleonice. Donde ela tivesse Originalda tacava a mão lá no baixo Leblon dela e coçava mes... coisa triste de se vê.
Aqui nessas vilinha das redondeza da Camiranga o que mais tem é gente com nome esquisito. Tranguilanês, Originalda, Ermembergo, Flóscula,Orozimba, Universina,Xerox, Magaiver, Ultra, Zefir, Bucetildes, tem inté os gêmeos, Pisódio e Catalepsia, que já cumentei sobre eleszin pr’ocês nesse causo aqui.
Curpa disso, em parte, é do Takeo, um japonês que fugiu da escola, malemá aprendeu as lição da cartilha Caminho Suave, mas por mode de sê meio parentado daquele pulítico, o Ferdinando, da Coxaminga, cunseguiu um emprego no cartório registrando os nome dos que nasce e dos que morre num livrão grandão que tem lá. Pra piorá Takeo tomém gosta de entorná uma pinga. Junta as ignorança dele com a cachaça coisa boa num podia resurtá.
Povin que teve o nome estragado por curpa do japoneis tem reiva dele, inté ponharo nele o apelido de Pariu, Takeo Pariu. Quano Takeo tá c’os corno cheio de pinga ele sorta os cachorro em quem falá esse apelido pr’ele, boca suja que só ocês vendo mes.
Povin daqui é candongueiro, num perde viagê na hora de mangá c’oas disgraça alheia. Os que escapa de tê nome distrambelhado, num escapa dos apelido. E foi o que assucedeu prum amiguim do Sequóia, que veio trabaiá aqui nessas paragens e tinha um nome ingrês, John Redwood. Ele era neto de gringo e tinha muito orguio do nome chique dele. Vivia humiando o povin, dizendo que o sobrenome dele significava “madeira vermeia” lá na língua enrolada das parentada finada dele. Pelas costa povin já chamava ele de Pau Vermeio.
Um belo dia, esse tarzinho tava lidando na lavoura dele, quando de repente sentiu vontade de tirá água dos jueio. Como a casa tava distante, resorveu se aliviá ali mes, num poste denergia létrica que tinham colocado naquela estradin. Isso foi nos antigamente, quano inda era tudo poste de madeira, e os fio de telégrafo e letrecidade ficava tudo dipindurado, balangando em dia de chuva e vento, forrado de passarinho.
Hoje em dia ninguem mais passa telegrama né mes? Será que os correio inda tem esse serviço?
Assucedeu que justamente aquele poste tinha lá no artão dele uma caixa cheia de fio e umas tarracha e umas roldana de porcelana preta. Era ansim como se aquele poste fosse o chefe dos outro poste que tava fincado ali naquele estirão da estrada. E pra mar dos pecado uma das tarracha donde os fios se enrolava tava mar parafusada e de arguma maneira escapava nergia létrica. Inté fazia um chiado, qu’ispantava os passarim, um baruio dificir de expricá pr’ocês. Sequóia, que é istudado, instruído nesses mistério denergia expricô que devia de sê um causo de mau aterramento. De arguma maneira escapava nergia dos fio e tudo ali em vorta do poste tava nergisado.
O sujeitim, desavisado desses perrengue técnico, ponhô o berimbau pra fora e quano o premeiro jato de xixi bateu no poste tomô foi um choque que jogô elezin longe. Os bóia fria que tava capinando o mato junto c’oele foro acudi mas o home estrebuchava, c’oas carça baixada, bunda esfregando na terra, os zóio revirando lá dentro dos buraco que só deixava vê o branco que é inguar em todo mundo. E o baruio no poste daí que ficô brabo mes, um chiado nervoso que parecia inté que o poste tava se preparando pra subi feito um foguete.
Cunseguiro levá o pobrezin pro postin de saúde e deu o que fazê pr’ele saí dilá, ficô dias internado. Os que viro o imbróglio tudo acuntecê falaro que saiu ansim feito uma língua de fogo do poste e pelo xixi o choque foi lá e chamuscô feio a gurumbumba do pobrezin. Os bóia fria falou qu’inté cheiro de queimado tinha.
Desdessedia c’o pobre do John Redwood virô foi Pau Torrado. Disacorçoou das idéia, inté mudô daqui pra bem longe, tadim delezin.
Aqui quem vos fala é Antonha, neta di sua Cumadi Siá Maria Lôra, caus de quê a véia é portugueza qui vei pro Brasirl pequetita, mais os irmão pra trabaiá nas lides das lavora de café de cá de Cudomundópolis, distrito de Veadinho, comarca de Inhapim, Diocese de Governador Valadares... Caus disstudo ca Vó é narfabética e ieu qui vô dá as nutiça que são boa, por inquanto.
Intonce deuce o siguinte. Chegô Bispo novo pra Diocese, trem dificirl de arranjá é padre e bispo bão! Contece qui chegô um lemão , chamadu de DãoVerne, i o ôme é mei zureta, caus qui foi na guerra mais diz quele é munto muderno e anda de bicicreta co’ua pastinha dipindurada pra tudo conto é lado.
Siá Maria Lóra gostô não. Mais o Padre Gerardo Home de Faria, fi da D. Alice mais do Sô Delário sacristão, falô pra mode nois custumá co’ele pruquê ruim co’ele pió sem ele...
Pois entonce, Padre Gerardo arreuniu as Irmandade tudo, do Sagrado Coração de Jesus, das Fia de Maria e as de São Vicente, pra fazê uma festança mode recebe o tar de Dão Verme, verne, quer dizê.
Aí sobrô pra Nica do Vicente do Brás fazê as decoração. In cima dus palanque i no camim co Dão ia passá, enfeitaru tudo de bandêra do Brasirle da Lemanha, uma que tem umas cruiz munto ingraçada. Despois de tudo infeitadim o Padre vei vê i feiz o maió iscarcé dizeno ca bandera da Lemanha tava errada, num era daquê jeito não!!! Cá qu’eas cruiz enrolada era do nazismo, que matô na câmra de gáiz muntos inucente! Creindeuspai, quais qui nóis disgosta o Dão cas nossa ingnorança!!! Nois troquemo pela bandêra certa e fico munto bunito!
A Nica do Vicente do Brás é munto caprichoza, no camim in frente o palanque ela botô lá no arto uma pata-cisna ca bunda toda recheada de pétula de roza, com uma fita de cada lado. Na hora co Dão aparecesse, cada mini do Lar das Criança, uns bunitim bem iscoido, ia puxá a fita e despencá as pétula de roza na cabeça do Bispo!
Ia ser munto grandiozo pra nossa Paróquia. As comida já tava tudo encomendada da minha irmã Preta do Garoa, banqueteira de mão cheia. Elazin e Dona Frora, vó do Luizo, marido da Marça, é que fizeram as cumilança.
Banda de Músga Santa Cecília infardada e maestraeda pelo Sô Zito Chaga. Otoridades da Lei e do Município só subino no palanque. E toca u povo a esperá. Tava marcado pras dez e meia, já era meidia e nada do Bispo parecê. Minini discola cumeçô a desmaiá de sol quente na moleira e fome. Foguete, tinha mais de mirl pa sortá. O Zá foguetêro já tava desinquéto.
Aí o Padre Gerardo arresorveu mandá comitiva na entrada da cidade pra decepcioná o Bispo quele pudia tá arreliado co’s pneu da bicicreta que inté pudia tê istorado caquela quentura! Pois foram uns seis.
Tão isperanu, tão isperanu, tão isperanu e nada do Bispo.
De repente, lá pras uma e meia ês viru um vurto de bicicreta...Jandir Cabelo vuô na frente na carreira, mode mandá começa as omenage .
Ficou lá em riba da ponte fazenu uns jesto co”s braço banando feito um doido.Era o sinar.
A furiosa atacô o Cisne Branco. E o Zá começô a sortá us rojão.
Sagrado Coração de Jesus acha que é a mió irmandade que há.
U”as veia coroca, e minha mãe Maria Santíssima , que é a zeladora mais antiga é que carrega a banderona da irmandade. Oianu assim a gente nem pensa a peste ca que’a muié é. É minha mãe, mais ô trem ruim, sô!
A comitiva achou mei isquisito o Dão vim de terno branco e de chapéu, muntado numa bicicreta novinha. E sem aquele casquetim roxo lá dele. Mais num tem importança, nois é civilizado.
Garraro u Bispo , pusero nas cacunda e o ôme num quiria vim não, mais ês juntaru ele com força i trucéro. O miseráve do Dão, num quiria ser menagiado por nois não, sô! Mas teve que sê. Seno ôme de Deus tem que tê simpricidade. Qui nóis é simpres mais nós sabe agradá uma otoridade. Guentô us foguetório, o Cisne Branco, e os mininu puxaru as fita da bunda da pata-cisna recheada de pétulas de roza in cima da cabeça dele... Munto bonito!
Aí chamaru ele pra riba do palanque. E ele já ca língua pra fora di tanto pelejá pra escapuli da comitiva, mais falô: ô gente, eu num sô Bispo não cambada, eu sô o Jaburu jogadô de baraio lá de Ubaporanga. Eu vim aqui recebê uma dívida de jogo, oceis me larga, me sorta, devorvi minha bicicreta.!
Nó, foi maió tragédia Sinhá. As musgas, o banquete, os foguete, a bunda recheada da pata-cisna, foi tudo pro ôme errado!
As muié tudo chorô. Mais o Padre Gerardo quais mijô nas batina di tantu ri , di segurá a barriga mês! Aí o jeito foi nois pruveitá.
Condo o Dão chegô já tava tarde da noite, atrazô pru caus co jipe que ele vinha furo us peneu...Ara!
Brigada Sinhá Clementina. Minha Vó Siá Maria Lôra manda lembracas e abracos procê , pro Cumpadi Chico Secóia mais us minini.
Ieu que iscrevinhei essas nutiça pesso a bença. Inté ota ora Sinhá.
Sia Maria Lôra tem umas neta supimpa. Tem uma tar de Márcia Vilella, mocim inteligente que só ocês vendo mes... que pubrica uns escrevinhado bunito nesse lugar aqui. Dispois ocês passá la pa mode de vê como essa Márcia Vilella tem talento pra mais de metro e sabença saindo pelo ladrão.
Ocês num vão aquerditá, causo que inté ieu mais Sequóia teve que lê e relê a cartinha do retratista, mas tenho uma novidade boa dimais da conta pra conta pra tudo ocês. A Çãozinha, nossa fia que enveredô pelas glória da carreira artística, foi discuberta por um zoieiro lá dos estrangeiro e mudô pra Rolliudi. Os que num sabe do que ieu tô falando pode sabê mais da Çãozinha aqui.
Eita cabra arretada!
Çãozinha nasceu mes com o trazeirinho dela virado pra lua, causo de que vai tê sorte ansim lá longe sô.
Assucedeu dela e do retratista tá fazendo uma temporada lá em Governadô Valadares. E lá, como ocês deve de sabê, tem muita gente que tem parente que debandô de mala e cuia lá pros Estadisunidos. Di modos que arguém batêu um retratin de Çãozinha fazendo as arte dela e uma coisa puxa outra antes mes deles saí de lá chegô um contrato lá dos estrangeiro, chamando Çãozinha pra estrelá um firme lá nos Rolliudi.
E o mió do causo é que Çãozinha tá cunhecendo um monte de celebridade, daqueles artista mais famoso que sabonete Cashimir Bouquet, tudo uns home bunito que só ocês vendo mes. E a danada tá encantando tudo eles com o talento e a belezura dela, inté aprendeu a falá Ingrês causo de que é esse diacho dessa língua que eles fala lá.
Tem um tar de George Clooney que contracena c’um elazin e diz o retratista que inté ficô com ciúme, causo que o tarzinho fica zoiando sem pará pra Çãozinha. Sei não, pra mim o retratista tá é cum medo de perdê a parceira dele e ficá sem uma cabra talentosa pa mode de cuntinua com o ganha pão dele.
Como Sinhá é muié de mata a cobra e mostrá o pau vô ponhá pr’ocês vê, com excrusividade, um pedacim do firme que Çãozinha tá estrelando. Vai sê lançado em novembro. Povin daqui da Camiranga tá tudo preparando uma festança, inté vão cunvidá os artista tudo pra vir aqui mais a Çãozinha dá otógrafo. Ocês prestenção na cena que Çãozinha cai no chão, dispois de sê hipnotizada pelo tar do George Clooney, vejam ocês se minha fia mais o Sequóia tem um num tem um talento pra mais de metro? Óia que Sinhá fica inté arrupiada de vê elazin nos Rolliúdi e pensá que ieu criei essa bichin na mamadeira, defendi elazin o dia que ela chifrô o espeio lá da casa da Corina e do Fidel.
Vô falá uma coisa: se esse firme concorrê pro Oscar Sequóia mais ieu vamo lá vê nossa fia recebê o prêmio, causo que quano os crítico vê Çãozinha atuando, inté falando Ingrês, sem sutaque, ah, num vai tê pra mais ninguém. Ocês descurpe a corujice, mais Çãozinha merece.
E teve um dia que Sequóia mais eu mudamo de casa, uma época que nóis morô mais pra oeste de Deus me Livre, numa vilinha pertim do São Francisco. Nós tinha um vizinho muito prestativo, chamado Lóid, que foi ajudá a fazê a mudança. O pai desse Lóid era marinheiro e ponhô nos fio dele só nome que tinha a vê com navio: Astrolábio, Bombordo, Estibordo e a caçulinha, Bússola. Pra não destoá a muié dele se chamava Ondina. Era uma famia que só de chegá perto a gente sentia cheiro de maresia.
Mas pra mar dos pecado Lóid era um tanto quanto meio lerdinho das idéia e por curpa delezin Sequóia quase ponhô as tripa pra fora, de tanto fazê força. Na hora de carregá o sofá pra ponhá no caminhão tinha que passá pela porta e fazê uma curva pa mode de descê as escada que ia pra carçada. Sequóia fazendo a maior força e nada do sofá passá pela porta, parecia inté que tava entalado. Quano Sequóia cunseguiu levantá a cabeça viu que Lóid tava virando pro lado errado, fazendo força contrária.
E foi nessa toada a mudança intera, um sacrifício pra muda os tareco mais pesado. Lóid quiria ajudá, mas mais atrapaiva. Sequóia, que gerarmente é carmo, tranquilo feito um lago plácido, cabô a mudança mais bravo que um siri na lata, de tanta trapaiada que o vizinho aprontô.
Mas o pior inda tava por vir. Dispois de pelejá dia inteiro com as burrice do Lóid Sequóia foi devorvê o caminhão que tinha alugado pa mode de fazê a mudança. Ieu fiquei na casa, arrumando os trem.
Mas antes ele arresorveu pará num mercadin pa mode de comprá umas cerveja gelada e uns petisco causo que ieu tomém tava cansada e num tinha nada di comê na casa nova. Na hora de entrá na garage do tar mercadin o caminhão era arto dimais. Entrô por um triz. Sequóia inté ouviu o arranhado que tava fazendo em cima da cabine do chofer, causo de quê aquilo entrô raspando numa coluna que tinha lá no teto. Dispois que passô pela coluna o teto era mais arto e num raspô mais.
Acuntece que na hora de ir embora tinha que passá ali de novo e Sequóia ficô arreliado, matutando como ele ia saí daquela esparrela sem causá mais dano no caminhão. “Mais essa. Agora vô tê que pagá pela pintura do caminhão tomém”, pensô Sequóia.
Foi lá, fez as compra que ele queria e o tempo todo ficô matutando, como ia escapá daquele enrosco. Arresorveu murchá um pouco dos pneus do caminhão, pro bicho diminuí de artura. Mas viu que nem ansim o parto ia sê facilitado, a tar da coluna mais baixa na saída da garagem tava lá e ia arranhá inda mais a pintura do caminhão. Nessas artura já tinha juntado povin pra apriciá a dificurdade do meu Sequóia, inté gente fazendo aposta se ele ia raspá mais o caminhão ou não juntô na porta do mercadin. Povin daqui é candongueiro, adora se metê na vida dos outro, coisa que ocês sabe que Sinhá detesta, num suporta.
E num tinha outra saída. Que situação. Daí Sequóia viu no ponto de ônibus, carregados de sacola de compras, o Zé Corno e a Dadivosa. E Dadivosa, como sempre, exprodindo de saúde, naqueles vestidim curtin que ela usa, enorme de gorda, com uns braço e umas perna que era o mes que vê umas tora de madeira, roliça feito uma linguiça paio. Zé Corno naquela tranquilidade de boi manso dele, pitando o cigarrinho, magrinho, franzino inté, pertinho da muié parecia uma sarsicha murcha. É um par muito do esquisito aqueles dois, já falei.
Sequóia foi lá e ofereceu carona, que eles aceitaro, felizes da vida. Zé Corno inté vortôu dentro do mercado e panhôu mais uns mantimento pesado enquanto Dadivosa, mostrando os dente, já ia se aboletando na cabine, mais aberta que jaca madura quando cai do pé e se esborracha no chão.
Sequóia então falôu que levava os dois pra Camiranga, mas antes eles tinha que ajudá saí da garage. Ponharo os mantimento na carroceria e Zé Corno e Dadivosa se penduraro do lado de fora, garrados os dois nas porta do caminhão pa mode do bicho ficá mais baixo e passá sem raspá o arto da cabine no teto da garage. Sequóia e Zé Corno de um lado e Dadivosa elefanta do outro. Povin na frente do mercadin que tava apriciando a operação “saída da garage”, inté batero parma. Os que perdero as aposta ficaro brabo.
Quano Sequóia chegô em casa e contô a epopéia que tinha sido comprá aquela cerveja gelada e aqueles petisco foi a vez de Sinhá dá um chuveirada de Brahma em cima dele. Inté engasguei de maginá Dadivosa gorda daquele jeito dipindurada no lado de fora da boléia fazendo peso pa mode de baixá o caminhão.
Cabamos os dois, Sequóia mais ieu, rindo de tudo as trapaiadas daquele dia. Tá certo aquele ditado que diz que tudo aquilo que apoquenta a gente num dia mais pra frente vira motivo pra risada e deboche. Verdade mes, da legitima.
E teve um dia que os minino do Mistronguinho foro passá umas hora na casa da vó deles, a Maria Formiga. E um deleszin, o menorzin (é uma escadin, tudo minino macho) ficô brincando pela casa com uma bixiga branca, zanzando pra lá e pra cá, dando uns tapinha na bixiga pa mode dela não batê no chão. Nessa brincadeira cabô chegando no banheiro e por azá dele a bixiga caiu dentro da patente.
A casa da Maria Formiga era das mió daqui da Camiranga. O gabinete de fazê os aperto da barriga ficava a bem dizê dentro do rabo de pato que ela tinha nos fundo da casa, donde que ela tinha o tanque de lavá roupa e um fogão de lenha pa mode de ferve as roupa antes delas ir pro quarador, sê branqueada pelo sol.
Di modos que quano o minino viu a bixiga branca dentro da patente, ficô com nojo de pegá ela de vorta e largô ela lá. Dispois de um tempim, tudo eles foro embora da casa da vó, brincá n’outro lugar. E Maria Formiga, que tinha um perrengue lá nos escondido dela, (os que num se alembra desse causo pode lê aqui) teve uma dor de barriga e correu pro gabinete.
Sentô lá sem ponhá reparo que o neto tinha esquecido o brinquedo lá dentro. Quano que ela cabô tomô um susto enorme, causo de que a obra ficô encima e escorreu pelos lado da bixiga branca. Quem viu dispois falô que dava a impressão que ela tinha enchido metade da patente com a obra dela, coisa feia que só ocês vendo mes.
Maria Formiga cumeçô na pranteação, no “Jesus, me acuda”, danou-se a chorá. É uma muié muito da comovida, quarqué titica de galinha puxa água pros zóio dela. A vizinha, dona Edvirges, a mes que viu o imbróglio da Nazira Camburão com o causo da bola presa ditrás da porta, correu lá, pa mode de acudí a Formiga. E ficô impressionada.
Ficaro as duas oiando aquilo, pensando no que fazê. Tentarô dá descarga, mas a água passava por debaixo da bixiga (que elas num via, porque tava cuberta pela obra da Formiga), levantava elazin, ia embora pelos cano e aquela tristeza ficava lá mes, oiando de vorta pra elas duas. Que situação!
Morrendo de vergonha resorvero chamá doutorzin, causo de que aquilo só podia sê doença das braba, que ele tinha que vê. “Cumadi, eu vô morrê”, falava a Formiga pra Edvirges, e deitava água pelos zóio. Chegô doutorzin. Ficô assustado tomém, nunca que tinha visto tanta obra junta.
Doutorzin esquentô o bestunto dele uns minuto, pensando no que fazê. Resorveu que devia coiê um pouco daquilo e mandá pra Barbacena, inté pra Belrizonte. Arguém numa facurdade de medicina devia de sabê que diacho de doença era aquela que fazia o vivente enchê metade de uma patente. Coisa normal num pudia de sê, isso ele tinha certeza. Mandaro o fio da Edvirges no postim, levá um biete do doutorzin pedindo reforço.
Dali a pouco chegá do postim a mes enfermeira do outro causo, com uns ferrinho e uns potinho com tampinha, o nome da Maria Formiga inté escrevinhado já neles. E doutorzin com cuidado foi fazê a coieita. Quano que a cuiézinha que ele usava encostô na bixiga estourô elazin. Foi um forfé, tudo eles saiu correno do gabinete, assustados com o baruio.
Doutorzin ficô com o cabelo sujo, causo de que a bixiga estourô a bem dizê na cara dele.
Meteu a cabeça numa tina de água que tava dentro do tanque, garrô uma barra de sabão de côco e esfregô os cabelo e a cara dele na maior energia, parecia inté que queria arrancá o couro fora.
Dispois de enxugá os cabelo, Edvirges falô que ele tava brabo, falando pra enfermeira que ia sumi, pedi transferência, causo de que nunca na vida dele tinha encontrado um lugar mais cheio de gente doida e compricosa. ”Dona Isaber“, ele falava ansim pra enfermeira, ”eu já vi muita coisa nessa minha vida de médico, mas peido com casca só aqui na Camiranga”.
Tem um carpinteiro aqui na Camiranga chamado João, mas desde meninin ponharo nele o apelido de Nêgo, e pegou. O cabra nem é escurinho, pra falá a verdade ele alembra um pouco aquele Magro, daquela dupla engraçada, O Gordo e o Magro. Tem um corpo esbelto, alongado, uma cara comprida, uns zoinho pequenin. E aprendeu desde cedo o ofício de trabaiá a madeira.
E aprendeu muito bem. Fez muita porta, muito caixão de defunto, muitos móveis, mesas, cadeiras, camas pra todo esse povim das redondeza. Mas nunca que ganhô muito dinheiro trabaiando desse jeito. Criou lá os fio dele, fez uma casinha de madeira até que ajeitadinha causo que ele é caprichoso, comprou uma ximbica pa mode de passeá com a patroa dele nos feriado e tava tocando a vida nessa toada. Inté o dia que cruzô o caminho dele com o Pastor Ezequiel.
Pastorzin tava mei sorumbático, os negócio lá da ingrejinha dele num tava dando dinheiro e ele carecia de arrumá arguma novidade pa mode de fazê o povim se alegrá de novo.
“Carece de reavivá a fé do povo” foi ansim que ele expricou a idéia dele pro Nêgo Carpinteiro.
E a idéia dele era do Nêgo fazê umas cruzinha com uns pedaço de madeira véia, daquelas que sobra na hora de fazê os caixão de defunto e os móveis pras familia de bem daqui da Camiranga. A muié do Nêgo, a Darva, muito beata, perguntô se aquilo num pudia de sê pecado, heresia. Pastorzim ficô inflamado, só fartô subi na mesinha de centro da sala do carpinteiro pa mode de fazê discurso falando que as cruzinha ia reaviva a fé daquele povim e inté trazê outros crente pra pertim das portas do Céu e da sarvação das armas lá deles. E que elas, as cruzinha, ia tudo sê benzida antes de sê vendida, com água benta da legítima . Aquilo cunvenceu a Darva.
Di modos que Nêgo carpinteiro deu fim em tudo os retalho de madeira empoeirada que tava entuiando a oficina dele. E Pastorzim vendeu as cruzinha falando pro povim que elas tinha vindo lá da Palestina, dos estrangeiro, bem pra lá de Deus me Livre. E mais, que tinham tudo sido feita com a madeira legítima, da mesma cruz que aquelezin que morreu crucificado teve que carregá.
E desde esse dia, como um deputado lá de Brasilia, aquele que acertô um monte de veiz na loteria, Nêgo carpinteiro foi ajudado por Deus e passou a ganhá muito dinheiro. E agora, sempre que pastorzin Ezequiel entra em quarqué cunversa ele e inté a Darva fala ansim: “santo home, que vocação pra fazê o bem e sarvá o povim da danação eterna”.
Sinhá fica assuntando, escuitando esses causos e pensando que num carece de muita instrução pra enganá o povim. Só carece de tê cara de pau. Pois lá pras bandas de Campinas, donde que mora a Clarinha e o Antoniocar, inté num criaram uma santa nova, a Nossa Senhora Desatadora de Nós? E fizeram inté um santuário pr’elazin, que vive cheio de gente, cumprando medalhinha e outros badulaque e crendo que os problema normal da vida são nós que a tar da santa recem inventada tem o poder de desatá. Num falam por aí que quanto maior a mentira mais gente pra aquerditá nela? Pois é verdade memo, da legítima.
Das veiz Sinhá deita na rede e fica matutando, tentando encontrá um sentido pras coisa dessa vida. E fico pensando, esquentando meu bestunto, pra cabá sempre sem chegá em lugar nenhum.
Purexempe: Sinhá acha que devia de tê um jeito da gente sabê de antimão como é qui é cada vivente que cruza o nosso caminho. Pelo menos tê ansim uma visão, um aviso, inguar os trovão avisa antes da chuvarada. Causo de que isso ia arresorvê muita coisa e muitas tristeza nem iria atazaná o juízo dos vivente. Gente devia de nascer com argum tipo de sinar, ou pelo menos uma bula, inguar é nos remédio que o Espanador mais a Jandira vende lá na botica deles.
Num tem aqueles que ocê pode tomá sem susto, feito Biotônico Fontoura, Maracujina ou Licor de Cacau, pa mode de matá as bicha das tripa? Que coisa boa: ocê toma e dali a pouco já tá se sentindo melhorado. Pode inté receitá sem susto pra seus vizinho, quano eles tem os perrengue deles. Que ocê sabe que se num fizê bem, mar tomém num vai fazê.
Mas tem tomém aqueles remédio perigoso, tarja preta, que se ocê em veiz de 2 gotinha ponhá 3 num cadim d’agua seu coração pode inté pará de batê e babáu pr’ocê. Noutro dia te encontram estendidinho na cama, durinho, inguar aquelezin que dançava bunitim lá nos estrangeiro e que era um preto que tinha virado branco, tomém por causa de uns remédio lá que ele tomou.
Gente devia vir ansim tomém. Devia de sê possíver da gente vê nos zóio, na testa, de argum jeito, a cor da tarja dos outros. Causo de que tem gente, ocês bote reparo, que são tarja preta, daqueles capaz de revirá a cabeça do vivente que teve a má sorte de tê que cunvivê cum eleszim. Tem gente tóchica, daqueles que só cum os zóio ruim ou o mau humor deles ou as palavra azeda deles cumprica a vida dos outros, pode inté causa o coração perde o ritmo dele e sartá umas batidas. E ansim a vida vai encurtando.
O que é coisa que remédio bão num deve nunca de fazê. Mas, como já dizia meu cumpadre João Guimarães Rosa, “coração dos outros é pasto que ninguem entra”. E ele tava certim.
Sinhá das veiz acha que a coisa inda é mais perigosa, causo de que pasto lembra um campo aberto, plano, que pode de tê lá as tocas de lagarto e as moita donde se esconde as cascaver, mais se ocê tomá um cadim de cuidado ocê atravessa aquele caminho sem se machucá demais. Da veiz Sinhá sente que coração dos outros é mais um abismo, um precipício daqueles bem feio memo, daqueles que ocê é obrigado das veiz a anda bem na beiradinha dele, morrendo de medo de dá um passo em farso e sê engulido puraquele buracão escuro, donde a morte ou muito sufrimento te espera lá no fundão.
Ocês pur acaso tem cismas desse jeitim tomém? Sequóia vive falando que Sinhá cisma demais da conta, mas que se há de fazê? Sinhá tomém num sabe inté hoje qualéquié a cor da minha própria tarja e fico cismando, tentando discubri. Mas nem dianta tentá expricá pra Sequóia, causo que homem num entende disso. Homem tem serventia pra outras coisa, mas nunca pra entendê as cismas do coração de uma mulher.