Varanda da Sinhá da Camiranga
 


O alçapão

O alçapão

Lá na Vila dos Durão, donde vive o Jovaine, tem uma padaria antiga de um casal nascido nos estrangeiro, lá detrás do Montes. Ou seria no Alentejo? O home é o Seu Ambleto e a muié dele se chama dona Azeitonina. 

Ninguem nunca entendeu, mas o causo é que a mula deles empacou por essas bandas e eles resorveram ponhá a portinha pra vendê pão e biscoito. Eram duas formiguinha, trabaiavam duro noite e dia. Moravam nos fundos da padaria, dormiam em cima dos sacos de farinha de trigo. De manhãzinha povim ia comprá pão e pobre da dona Azeitonina tava c’oa boca cheia de pêlo do saco. Juntava os pêlo do saco com o bigode que ela já tinha e a gente inté pensava que a padaria podia se chamá “Dois Irmão”.  Muié de bigode, tudo mundo sabe, nem o Diabo pode.


O casar enricou, arresorveu construi uma casa. Seu Ambleto luxou, mandou ponhá teiado de teia de cerâmica, parede de tijolo cozido, inté zulejo nas parede. E novidade das novidade, ponhou a casinha de fazê os apertos da barriga dentro da casa, e não do lado de fora como era no costume dos antigamente. Ponhou tomém um chuveiro, pa mode dos minino pará de toma banho na bacia donde dona Azeitonina fazia a massa do pão. 


O Nêgo carpinteiro caprichou, fez um forro de madeira bunito pra casa nova do padeiro, com um alçapão grande pa mode de facilitá na hora de troca arguma teia quebrada, ou tirá pipa de criança enroscada lá em cima. Seu Ambleto compro uma caixa d’agua grande que nem um açude, pa mode de alimentá o chuveiro e tirá o cascão dos 14 mininos que ele e dona Azeitonina fizeram.


Dia de ponhá a caixa d’agua no forro da casa adivinha donde que seu Ambleto arresorveu que ela tinha que ficá? Bem em cima do alçapão. Num teve jeito d’ele entendê a bestagem que tava fazendo. Os pedreiro bem que tentou expricá, mas ele ficou bravo, mandou perguntá de quem era aquela casa mesmo? Falava ansim, daquele jeito que os que nasce lá donde qu’ele nasceu tomém fala: “Bagabundo nenhum vai entrar na minha casa pelo t’ lhado não sinhoire. E se tentar entrar pelas portas e j’nelas  arrebento-lhe as fuças”. Levou uns mês pr’ele entendê qualéquera o sentido de ponhá um alçapão dentro da casa. Mafardinha, naquela paciência dela, ficou 30 dias expricando pr’ele e quano ele finarmente entendeu falou ansim: “ah ié?”  Ele e a muié falava engraçado, comendo as vogar e trocando as letra, o V de vespa pelo B de bola. Ele falava ansim: “Ó Azeitonina, cadê o leite da baca?”, e vivia mangando dos lambari do corguinho da vila, falando que peixe bão é um tar de “vacalhau”. 

O irmão desse seu Ambleto tomém era esquentado das idéia, chamava seu Adelino Cabral, mas outra hora eu conto uns causo dele. Inté.


 



 Escrito por sinha-clementina às 10h05
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A Dadivosa

A Dadivosa

Morava na Camiranga um casal muito esquisito, o Zé Corno e a Dadivosa. Nome dela de verdade era Maria do Socorro, mas o apelido Dadivosa encaixava tão bem nela que Socorro caiu no esquecimento.A tarzinha dava mais que chuchu na cerca, mais que maria senvergonha, aquela florzinha que dá em tudo lugar. O marido, antes de casá co'ela era só Zé, dispois que ponharam nele o segundo nome, mas ele num se incomodava não, inté achava graça. Era um casal esquisito, já falei.

Pois intão. Um belo dia o vizinho deles, o Alípio, tava indo na istrada em direção a Barbacena, levando na charrete uns saco de mio e feijão, pa mode de vende na venda. Zé Corno, sentado na varanda, pitando, perguntô se o Alípio num se incomodava de sentá pra lá só um cadinho pa mode da muié dele podê ir junto, vê uns parente dela lá em Barbacena. O Alípio falou que ela pudia amuntá.

Lá veio a muié do Zé, estourando de saúde num vestidinho de chita apertado. Deu uns beijo istalado na cabeça do Zé, mas já oiando safada pro Alípio. Na hora de subi na charrete levantou tanto a perna que Alipio viu o jogo todo, do coringa até o ás de copas dela, causo de que a tarzinha tava sem calçola, só usava o vestidinho que malemá cubria as carta mais importante. Zé Corno, na varanda, só se ria, parecia inté que tava achano graça do vermeio da cara do Alípio. Começaram a viage, sacolejando na charrete, o Alípio quieto, mas com o pensamento naquilo lá mesmo que ocês já sabe, causo de que home é ansim mesmo. Jeito qu'ele encontrô foi falâ com os animar, os dois cavalo que puchava a charrete. Um chamava Xandô e o outro Laredo. Ansim que entraram num estirão da estrada longe o bastante da Camiranga Alípio falôu pros cavalo: "Eia Xandô...eia Laredo....tô cum vontade de cantá cumadi Dadivosa, mas tô com medo". E a tarzinha, sem perdê o passo da dança, arrespondeu falando pros bichos tomém: "Eia Laredo...eia Xandô....se o cumpadi Alipio me cantá eu dô...". E o Alípio, mais que dipressa, deu o ordem pros bichos :  Ôôôôôôôôôôôôôô! 



 Escrito por sinha-clementina às 08h21
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Mistronguinho

Mistronguinho

Desde qu”eu era criança pequena, lá em Barbacena, qu’eu escuto falá que quem tem pressa come cru. Ou quente. Mas nessa estória que vô conta a pressa de uns inté que ajudou muitos outros, nascidos e até os ainda por nascê.


Foi ansim: assucedeu de nascê esse minino bem no dia que dizem que os home chegaram lá na Lua com aquele foguete deles. A mãe da criança achou tão lindo o nome de um dos que voaram no tar foguete que arresorveu ponhá o mesmo nome no nenê: Armstrong.


Pior viagem. Magine que esse povim gonorante daqui ia sabê fala nome estrangeiro? Capaz!

Inda no berço o bichim já tinha virado “Mistronguinho”. E Mistronguinho ele ficou.

Mistronguinho cresceu, casou e danou-se a fazer minino. Todo ano a Lucinéia, muié dele, despejava mais um desinfeliz nesse mundo. Dava uma gastura vê a pobreza daquela gente e Lucinéia sempre de bucho cheio, com aquela escadinha de fios grudado na saia dela. Um belo dia Mistronguinho panhou uma dor de garganta, daquelas brava, que num cura nem com gragulejo de chá de romã.


Justo nesse dia o postim de saúde tava aberto. Num é sempre que tem médico lá, intão quano tem aquilo vira um rebosteio, gente doente, criança misturada com véio, um forfé. Despois de isperá uma encarnação Mistronguinho entrou na sala do médico. O doutorzim nem olhou pr’ele: mandou baixá as carça e deitá numa caminha apertadinha que tinha lá. Mistronguinho achou esquisito, mas ficou com medo de contrariá o doutorzim. Nisso entrou uma enfermeira carregando um monte de ferrinho numa bandeija, fazia ansim tec tec tec, e o doutorzim ponhou uma luz bem forte alumiando as parte baixa do Mistronguinho. O pobre tava vermeio de vergonha, com os documento exposto, iguar batata na feira, tentou se cobri mas o doutorzim falou bravo: fica quieto e num se mexe. 


Mistronguinho contou despois que só lembra de ter sentido uma dor fininha lá nele e despois num lembra de mais nada. Quano acordô tava numa sala tudo branca, que ele inté pensou que fosse a sala de esperá São Pedro pa mode de entrá no céu. Do lado dele tava o doutorzim, com a cara inda mais brava do que iantes. “Senhor Armstrong? “ “Ieu mesmo”, ele arrespondeu po doutorzim, sem entendê nadinha por causo de que aquele moço garboso, estudado, vevia com aquela cara brava, cara de quem tinha chupado limão galego, daqueles intragave.

“Como o senhor faz uma coisa dessas Sr. Armstrong? O senhor foi operado, fizemos uma vasectomia, porque não avisou que não estava aqui pra fazer isso?".

Mistronguinho então expricou  que tinha achado esquisito mesmo, a dor era na garganta, mas pensou que tarvez a cachumba tivesse descido e o doutorzim ia dar cabo dela lá embaixo. O médico só balangava a cabeça, parecia um daqueles boneco João Bobo.


Mistronguinho foi ao SUS curá a guela, saiu aSUSstado pra nunca mais ponhá o pé no postim de Saúde. De lembrança levou um baita esparadrapo grudado nos embaixo dele que despois foi uma peleja pa tirá aquilo, percisou inté tomá banho de assento. E inda ponhá aquela renca de fios dele tudo em vorta, soprando, abanando com foia de jornar, enquanto a Lucinéia pelejava pa arranca aquela coisa branca grudada nas parte dele. E os minino ria, despois saíram contando pra vila inteira, causo de que criança num tem noção. Mas inté que foi bão. Nunca mais Lucinéia teve fio. E a dor de garganta se acabou sozinha. Acho que ela viu o que o saco padeceu e resorveu tomar tento mode de não acontece o memo co’ela.

 



 Escrito por sinha-clementina às 14h28
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Minha comadre Mafardinha

Hoje vou contá pr'ôcês um causo acontecido com minha comadre Mafardinha e o marido dela, o Arnesto. 

Mafardinha é um doce de criatura, muié boa, trabaiadeira, honesta, que sempre viveu pro marido e pros fios deles. Pobrema da Mafardinha é que ela é meio lerda das idéias. Quano criança Mafardinha apanhou demais da conta. O pai dela era um véio truculento, que sem que nem porque sentava a mão na muié e nos fios dele. Mafardinha, de tanto apanha no bestunto, ficou manca da cabeça. Num chega a ser  retardada, mas farta pouco. É daquele tipo de pessoa que num consegue tomá conta de duas tartaruga. Se ponhá Mafardinha pra vigiá duas tartaruga, daquelas bem véia, que anda se arrastando bem devagarinho, uma das tartaruga consegue fugi e se escondê, muito emboramente Mafardinha tenha os zóios alumiando um o entardecer e outro o arvorecer do mundo. Mafardinha é zaróia, um olho vigia a esquerda e o outro as dereita. O povim daqui diz que ela tem um olho no queijo e outro no rato.

Bão. Assucedeu um belo dia que um parente do Arnesto morreu e ele e Mafardinha foram pro velório. O finado morava numa vilinha xexelenta, pra lá de Deus me livre, longe demais da conta, careceu de horas sacolejando no lombo dos cavalo pra chegá lá. Quano finarmente chegaram a casa do finado  parecia uma casa de abêia, um ninho de marimbondo bravo, fervilhando de movimento, sortando gente pelos vãos das teias e das parede. Nos antigamente velório era ansim que se fazia: ponhavam umas curtininhas roxa nas janela, o caixão com o morto no meio da sala, aquele monte de frô em vorta e ficava aquela pranteação de deixar agoniado mesmo o vivente de coração mais duro. Era gente pra tudo quanto era canto da casa, na cozinha, nos quartos, sentados em bancos espalhados pelo quintal contando piada, criança brincando de escondê no meio dos adurtos, a viúva chorando, gente fumando, gente desmaiando, dando chilique, um forfé. Pra piorá fazia um calor dos diabo e a casa toda fedia  suor e  peido de véia, de tanto cravo de defunto em vorta do morto. Mafardinha, cansada da viagem, com a bunda doendo de tanto andar a cavalo, naquela casa estranha apertada de tanta gente, suada, encalorada, mais zureta que nunca , saiu percurando um canto pa se escondê e discansá as idéia. De repente ela viu um sofá cheio de criança. Foi inté lá, puxou a criança que tava na beirada, sentou no lugar e colocou a criança sentada nos jueios dela. Mas o diabinho da criança, devia de tê uns 3 aninhos, pelo tamanho, ficou desinquieto, danou-se a mexer pra lá e pra cá, balangava as perninha, derreava o corpinho tentando escapá. Mafardinha, com aquela paciência só dela falava no ouvido do tarzinho com aquela falinha molinha dela "fica quietinho bem, no colo da tia" e não soltava o bichim, que esperneava e bufafa. Arnesto quase morreu de vergonha quano entrou na sala e deu com Mafardinha pelejando com o anãozinho da vila, um cotoquinho de seus 90 centímetro de artura. O tarzinho era ajudante do sapateiro do lugar e já tinha passado fazia tempo dos 40 anos. Tinha uma carinha enrugadinha, uns zoinho miudinho, uns cabelinho espichadinho que era o memo que vê a fuça de um rato. Foi uma risadaiada só, Mafardinha acabou com a tristeza do velório. Quem num gostou do acontecido foi o anãozinho, que saiu do velório pisando duro e na calada da noite se escafedeu da vilinha pra nunca mais ninguem ter notícia dele. 



 Escrito por sinha-clementina às 16h34
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