Varanda da Sinhá da Camiranga
 


Madama Zora Zoraida (continuação)

Madama Zora Zoraida - parte II

Dizem línguas de Matildes que Madama Zora Zoraida é cigana turca, que chegou nessas paragens disposta a ganhá a vida vendo a sorte dosoutro nas página da Bíblia, causo de que na bola de cristar e nas cartas de baraio já tem gente dimais fazendo isso. 

Padre Cândido, quano soube, ficô é macho, dizendo que era uma farta de respeito e coisa e tar e proibiu povin de visitá a madama. Mas desde Adão e Eva que a curiosidade sempre ganha nessas paradas.


Anunciando ser capaz de ver “ bresente, bassado e vutura”, Zora Zoraida assombrô o povin de Cudumundópolis com as adivinhação dela. Mas na verdade ela é  meio aparentada distante das neta da Sinhá Maria Lora, nascida lá em Caratinga, Inhapin, aquelas paragens. Nunca foi turca. O que ela é é uma baita atriz malaproveitada, que nunca encontrô um teatro, um circo, um grupo de maluco pra se juntá e desenvorvê os talento dela. 


Mas talento é feito semente, brota em quarqué frestinha de pedra, na beira de abismos, no meio dos pântano.Talento é feito água represada, um dia arrebenta e leva tudo de roldão. E elazin resorveu criá essa personage, a madama Zora Zoraida. Arrumô outra doidinha feito elazin e as duas bolaro um plano. Funciona ansim: Zora chega na cidade vestida bem pobrezim, junto com a “fia” dela, a Babevê, que se faz de tonta, retardada, inté cruzá os zóio, vira zaroia, abre a boca, deixa a língua pra fora. Tudo teatrim, aquilo é mais esperta que raposa.


Zora pede bem humirde pra dona do salão de beleza do lugar pra deixá Babevê lá, enquanto ela sai pa mode de procurá trabaio. Conta que ficô viúva, que tem aquela cruz pra carregá, e inté chora, a danada é boa pra enganá trouxa. E Babevê fica lá dia inteiro  ouvindo tudo as fofocaiada dos lugarejo, causo que donde tem muié é só isso que saí mes. 


Quem é chifrudo, quem é ladrão, quem num sabe que carrega chifre, quem é rezadeira mas santinha do pau oco, quem é boiola enrustido, essas cunversa que sai enquanto as dona tão embelezando a cara e o cabelo. E dispois Zora inventa mais umas bobajada pa mode de custurá as história e assombrá o povim.


Babevê tem bestunto bão e fica rabiscando um caderno dia inteiro, oiando pro céu. Das veiz dá inté uns grito, faiz direitim o paper de retardada. Quem vê pensa que é só rabisco. É não bobão. As duas inventaro um código pa mode dela num esquecê de tantos causos e dispois contá tudo pra Zora inventá as "adivinhação". Se falam lá no salão do padre ela rabisca uma cruz. Se falam que o padre dorme com arguma bunduda, ela rabisca uma furmiga tanajura. Se a tar bunduda é dona do barzinho do lugarejo ela rabisca arguma coisa pra lembrá desses detaies. Se o marido da bunduda é gordo e mole Zora já sabe o que vai prevê a morte do pobre, vai dizê que carece de ir pro médico correndo causo de que o coração dele vai pará a quarqué momento, causo de que outras parte do corpo já num funciona mais e etecétera e tar. Se a bunduda tem fio estudando em Belrizonte tem outro código, se tem sogra jararaca é outro e ansim a coisa vai. 


Finar do dia Zora vai buscá Babevê, agardece muito a bondade da dona do salão. E durante o dia Zora tomém zanzou pela vilinha, pedindo emprego, assuntando tudo mundo, ouvindo uma história aqui, outra ali, prestando atenção no povim.


Dias dispois as duas vortá pra vilinha, Zora vestida de turca, cigana, zóião pintado de preto, vestido vermeio de babado E Babevê vira home, bota inté bigode, uma peruca grisalha, uns óculo, arrumou inté umas sombrancelha postiça que faiz ela ficá um home perfeito. Daí Babevê é Quinzin, que carrega as mala da madama Zora Zoraida. Treze mala. Povim adora essas coisa misteriosa, com número.

E enquanto madama discansa e se concentra Quinzin vai cortá o cabelo na barbearia, dispois bebe umas birita no bar, pa mode de discubri mais coisa.


E dia seguinte cumeça a enganação do povim e o dinheirim entrando na sacolinha, inguar é nessas igrejinha que tem uma em cada canto. Outra hora eu conto pr’ocês cuméquié uma sessão com a Madama Zora Zoraida. E a confusão que elas aprontaro lá em Deus me Livre, causo que Babevê misturô as página do tar caderninho e cabô embaraiando tudo as adivinhação da Zora e foi um forfé, um rebosteio, deu inté rolo com prefeito, delegado, padre, as duas tivero que saí dilá na calada da madrugada, pisando leve feito gato pa mode de nun acordá ninguém. Sinhá gosta delas. Apricio muié danada, esperta, ousada, e gente que professa a mesma religião que eu, que é ri. Uma tarde com Zora Zoraida e Babevê cuntando as aventura delas é mior que assisti aqueles firminho do Gordo e o Magro, coisa engraçada que só ocês vendo mes...


Beijim

 

 



 Escrito por sinha-clementina às 12h47
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