Varanda da Sinhá da Camiranga
 


SEQUÓIA, O BARBEIRO DE PAPAGAIO

 

Meu coração é mole pra quase tudo os tipos de bicho, mas cachorros e papagaios sempre foram de minha  predileção.

Perdi a conta dos cachorros que já passaro pela minha casa, mas papagaio só tive dois: o  Coreto, nos antigamente de minha meninice, e o Biscoito, já mulher feita. 


Como tudo os da raça dele, Biscoito era apegado com Sinhá e tinha raiva dos meus maridos, se achava o home da casa. Vinha no meu ombro, adorava bicar meu pão molhadinho no leite com café, das veiz inté banho nós tomáva juntos. E falava comigo dia inteiro, cantava, ponhava a cabecinha na minha mão pa mode de ganhá cafuné, uma gracinha, inteligência pra mais de metro.


Quano Sequóia chegou no pedaço Biscoito num fez questã de fazer amizade, cuntinou com as implicância dele. Sequóia só podia acarinhá Sinhá com ele longe. E mes ansim ele batia as asas e falava  “ó ó ó...” com a voz brava, parecia que tava falando “desenfasta peste, sai pra lá”. Agora ódio mes ele pegou no dia que Sequóia resolveu dar uma de barbeiro de papagaio.


Foi ansim. Biscoito andava voejando pela casa, com as asas muito compridas, perigando cair nas chapas do fogão de lenha. E num deixava de jeito nenhum aparar as asas. Ficava bravo, tentava bicar Sinhá. Papagaio é bicho de opinião.


Sequóia, valentão, garantiu que dava um jeito rapidim nas ousadias dele. Inté falou que Sinhá era mole, num sabia impor limites. Disconfio que lá nos escondido do peito Sequóia tinha era ciúme do chamego de Sinhá com o Biscoito.


Muito que bem: chegou perto do puleirinho aberto onde Biscoito passava os dias e bem rápido jogou uma toalha felpuda em cima do bicho. Daí garrou elezim e falô pr’eu aparar as penas de uma das asas com uma tesoura. Com as penas de uma das asas mais curta o bicho desiquilibra e num consegue mais voar. Dói nada não bobo, é inguar cortá cabelo.


Embaixo da toalha Biscoito se remexia, tentando escapar. Nesse mexe e remexe ele conseguiu enrolar as garrinhas dele num dos dedos do Sequóia. Pegou e danou-se a apertar. Biscoito tinha umas garras cumpridas, as unhas dele começaro a incomodar Sequóia que se pôs a gemer, ai ai ai... E embaixo da toalha, remedando ele, o Biscoito tomém falava ai ai ai...


Enquanto isso eu tentava livrar uma das asas do Biscoito pa mode de fazer o aparo, mas tava dificir, ele num parava de mexer. E eu ria, causo que tava engraçado ouvir Sequóia na gemeção dele, com o dedo garroteado, e Biscoito imitando tudo, com a vozinha abafada saindo debaixo da toalha.


Nesse rebosteio de segura daqui, puxa de lá, eu com medo de machucá ele com a tesoura causo de que ele num parava de mexer -- feito criança birrenta que num qué tomá um remédio amargo -- nessa confusão toda, Sequóia bobeou. Biscoito conseguiu livrar a cabecinha e lascou uma bicada feia na mão dele. Rancou sangue, foi pra valer. Pegou naquela pele fininha, entre o polegar e o dedo de apontar os outros.


Sequóia jogou Biscoito no puleiro, xingando: “ esse feladaputa desse papagaio atrevido me bicou”. E saiu pisando duro, foi lavar a mão no tanque, a sangueira espirrando. 


Daí veio a parte mais engraçada desse causo da vida alheia. O Biscoito, nervoso com o assucedido, cumeçou a andar pelo puleiro inguar pai esperando nascimento de criança, pra lá e pra cá, naquela agonia. Se o puleirinho dele tivesse um tapete iria ficar aquelas marcas abaixadas, inguar a gente vê nos gibizinhos do Pato Donald. E danou-se a contar pra Sinhá, na língua enrolada dele, a judiação que Sequóia tinha feito c’oele.


Olha, juro pr’ocês que o Biscoito, do jeito dele, me contou tudin, tim tim por tim tim. Imitou de novo os “ai ai ai” que o Sequóia falou quando o dedo tava sendo apertado. Dispois esticou a asa da discórdia e chilreou, pipilou, gorjeou, tuiuitou e conjugou tudo os verbos relativos à verborragia dos passarinhos. Parecia o Hitler fazendo discurso, alterado. Só faltava o bigodinho, causo de que o olhar estalado era igualzinho. Ocês num me pergunte como, mas eu tenho certeza que ele entendeu que tudo o forfé tinha a ver com as penas compridas da asa dele. 


E andava pra lá e pra cá, indignado, das veiz dava uma balangada no corpinho, arrepiava tudo as peninha, injuriado que só ocês vendo mes. Imitou direitinho inté o grito mais forte que Sequóia sortou, na hora da bicada na mão. E ainda riu quano acabou de contar a epopéia, risadinha daquele jeito de quem conta uma vantagem, de quem consegue se safar de um perigo.


Acho que ele me contou tudin causo de que no bestuntinho dele Sinhá num tinha participado de nada, Sequóia foi a última pessoa que ele viu antes da toalha cobrir elezim. 


Lembro que naquele dia eu fui escorregando pela parede inté sentar no chão de tanto rir com o jeito e o falatório do Biscoito. Cheguei a tê câimbra na barriga, dor nos cantos da boca, cabei mole feito geléia, esparramada no chão da varanda, frouxa de tanto rir. Nem tive condição de pegar mertiolate, Sequóia teve que se virar sozinho. E ficou bravo, foi dormir arreliado com Sinhá, deitou na cama e virou as costas. Di certo despeitado de tê tomado um baile de um bicho bem menor qu’ele. Home tem desses orgulho besta.

Sequóia entendê de muita coisa, inté dos labirintos mais infernais e trevosos de Dona Informática. E de tudo os milagres e mistérios de Santa Internet.

Mas pra barbeiro de papagaio ele num leva jeito não.

 

                                                             

 

                                                          Saudoso Biscoito, um dos amores de Sinhá.


 



 Escrito por Sinha Clementina às 22h09
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Dona Amélia

Dona Amélia era uma vizinha de minha cumadi Clarinha que adorava falá de doença. 

Diversão dela era frequentá a botica do Espanador e o postim de saúde pa mode de bisbilhotá e sabê de tudo os perrengues dos outros. Fez inté amizade com dona Isabel, enfermeira do doutorzim que capô o Mistronguim e encanô os ventos da Maria Formiga, e todo dia ficava sabendo quem estava doente, quem tinha piorado, quem não ia escapá de batê com a caçuleta. Era uma véia agourenta que só ocês vendo mes. 


Outra coisa que ela apriciava era falá nome de doenças, dos exames, dos remédios. E de usar branco nos velórios. No fundo dona Amélia sentia inveja dos médicos e de minha cumadi Arzira, enfermeira porreta.

Uma vez ela foi num velório de um pobre que tinha morrido de um piripaque no coração e perguntou pra viúva se tinham feito “caceterismo” no home. Foi uma risadaiada só, inté a viúva achô graça do jeito qu’ela falô, mas Amélia nem se deu conta, cuntinuou nas perguntação indiscreta dela.


 Assuntô com um e com outro pra sabê do que o home tinha morrido, mas ninguém sabia o nome do diabo da doença, só diziam que ele de vez em quando sentia uma dor da moléstia lá na caixa do peito. Ela então matou a charada: pobrezim sofria de “vangina do peito”, e morreu de  “síncope cardíuca”. Ela adorava essa palavra, “síncope”, ponhô inté esse nome numa cachorrinha que ela pegou pra criar.


Vivente nenhum podia reclamar de qualquer dorzinha besta no joelho perto de dona Amélia que ela já dizia que carecia de operar o “ministro” e mandava tomar um “analgético”. Das veiz, ela cismava que o marido, Mário, tava doente. Azucrinava o pobre, arrumava consulta pr’ele no postim de saúde. Na hora H o véio num ia, porque ele num tava doente coisa nenhuma, era tudo visagem da cabeça dela. Pa mode de num perder a consulta ia ela. E teimava com o doutorzim que ela e o marido era a mes coisa, que seu vigário tinha dito no dia do casamento que os dois eram um corpo só, que doutorzim podia examinar ela e curar o Mário, que ela levaria o remédio e daria tudo as doses pr’ele nas horas certinhas.


“Pode tirar o sangue do Mário, ele hoje num comeu”, ela dizia, já estendendo o braço e enrolando a manga da camisa. Doutorzim disacorçoava, balançava a cabeça, de tão bravo inté abandonava a sala, dona Isabel é que terminava a consulta. Das veiz inté tirava  sangue da Amélia pa mode de dispachá ela logo. Quano ela tava atacada por dimais Espanador dava umas pilulinhas de açucar pr’ela acalmá.


E teve um dia que dona Amélia foi visitar uma irmã dela que morava nas beiradas da Camiranga, quase caindo na estrada que vai dá lá no Fim do Mundo. Essa irmã dela alugava um terrenão nos fundos da casa pro pessoal do circo se alojá lá e dona Amélia, muito da enxerida, foi bisbilhotar o povim mambembe.


Cabô chegando perto dimais da jaula do leão e o bicho deu lhe uma patada. Coisa pouca, mas fez um arranhão na cara dela e num dos braços. O dono do circo levou ela no postim de saúde. Naquele dia tinha um outro médico de plantão. E elezin já tava sabendo das maluquice da Amélia, resorveu dá um susto nela, aplicar um remédio amargo, acabar com aquela cavilação dela de tomar tempo de quem trabalha. 


Ansim qu’ela falô que tinha sido atacada por um leão doutorzim num teve dúvida: ligô pra Barbacena e chamou a ambulância do Charcot, um hospital de doidos que tinha lá nos antigamente. Primeira vez que ela num tava mentindo nem exagerando nas verdades a pobrezim cabô de camisa de força numa enfermaria de gente babando. E quando mais ela gritava que era verdade, que tinha cruzado com um leão mau humorado, mais injeção pra amansá doido ela tomava. O marido, Mário, foi quem gostou: demorou duas semanas pra ir tirar ela de lá. Pessoal do Charcot ligava pra casa deles e Mário dizia que nenhuma Amélia morava lá não, tinha sido engano. Ri muito quano Jovaine me contô dessa arte do Mario. Dona Amélia mereceu o castigo. Além de ranzinza e apreciadeira das urucubacas alheias era muito da faladeira, coisa que Sinhá bissolutamente num suporta, ocês me cunhece.




 Escrito por Sinha Clementina às 16h54
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