Varanda da Sinhá da Camiranga
 


MEU FINADO JUSTINO

Já contei causos pr'ocês do Sequóia, do Pinheirão, mas botei reparo que nunca contei nenhum causo do Macieira, meu primeiro marido, nem do Justino Jequitibá, o terceiro, di modos que hoje vô fala um pouco delezin, conta um causo c'oele.

Justino era um homem bom, mas meio sistemático. Humor dele era meio seco, das veiz inté assustava, mas no final ficava engraçado. Assucedeu de uma vez Justino mais Sinhá dá um pulin no Rio de Janeiro, passear um cadim. E fomos tomar água de côco na praia.

Pertim tava acontecendo uma feira, um bando de gente vendendo colar de miçanga, pulseira de latão, essas bugiganga que vende nesses lugar. E tinha um sujeitim na tal feira com um corte de cabelo muito do esquisito. Os lado da cabeça era raspado, branquim que inté parecia as veias . No meio do bestunto dele o cabelo era todo arrepiado, espetado mes, e cada pouquinho tinha uma cor diferente. Era uma coisa esquisita: começava vermelho pertim da testa, dali a pouco virava um roxo, verde, amarelo, azul, tinha de tudos as qualidade de cor. Comentei com Justino que o pobre devia de trabalhar em loja de tinta, sendo o mostruário. Justino balangou a cabeça concordando. Eu dali a pouco me distraí com outras coisas, mas Justino achou aquele penteado deverasmente interessante e num parava de olhar. Canudo na boca, chupando a água de côco, e olhando pro sujeitim, impressionado mes.

Teve uma hora que o rapaizim, incomodado com aquela encaração do Justino, falou ansim:

"Qualé velhusca, nunca fez nada meio maluco na sua vida?"

E o Justino, sem perder o passo da dança, arrespondeu ansim:

"Fiz sim. Uma vez enchi a cara de cachaça, cabei caindo no galinheiro e passei a noite com um pavão. Tava aqui matutando se ocê num podia de sê meu filho".

Povim da feira morreu de rir e dali a pouco o talzinho enrolou as tralhas dele numa esteira e foi cantar noutra freguezia.

Justino era daqueles home quieto, que mais escuta que fala, mas quano falava tomém era porreta, matava a pau. 

Beijim pr'ocês

 

                            



 Escrito por Sinha Clementina às 11h06
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