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Meu bordado de Natal

 

MEU BORDADO DE NATAL

Natal é época de dar presentes. Tem gente que adora: a festa, as músicas, as trocas de presentes, a reunião com a família, a alegria da estação. Não fui sorteada nessa loteria. Não consigo sentir a tal "joy of the season", que tanta gente diz experimentar. Tem até uma musiquinha natalina que toca em todos os lugares aqui nos Estados Unidos nessa época que fala assim: "it's the most wonderful time of the year". Eu, pra fazer troça, mudo a letra pra "it's the most difficult time of the year". Justamente por conta das festas, das músicas, da loucura que fica o comércio e o trânsito. E também pela falta que me fazem pessoas que amei e que já morreram. Ou ainda aqueles que moram muito longe e cuja ausência, especialmente nessa época do ano, fica ainda mais aguda e dolorida. Saudades do Brasil também.

Portanto, como meu dinheiro anda curto e minha paciência para filas em lojas ainda menor, vou tentar deixar um presente, uma lembrancinha como dizem singelamente aí no Brasil, para uma pessoa muito amada que nesse Natal decidiu não sentar à minha mesa. Não por estar morta, graças a Deus, mas por estar atravessando um momento da vida dela em que a distância dos familiares é por si só um presente. Acontece, nas melhores famílias. O que nem de longe é o caso da minha: somos apenas gente comum, jamais poderíamos protagonizar comerciais de margarina.

Meu presente será feito com palavras, matéria prima tão maleável e acessível a todos, tão de graça, abundante e fluída como a água que poucos prestam realmente atenção nelas. Embora, exatamente como a água, elas sejam essenciais.

Meu presente para você, a que estará ausente, seria que você mantivesse sempre vivo em seu coração o sentimento de amar a Vida, com maiúsculas mesmo. A vida, só ela, esse sim, é o maior dos presentes.

Não apenas a sua vida, mas também a dos seus semelhantes. E a dos animais, das plantas, dos rios, dos mares, de tudo que respira e se move e sonha.

Deixaria a consciência de tentar aprender tudo o que foi ensinado ao longo do tempo por sábios que já viveram muito antes de seus tatatatataravós sequer existirem.

Deixaria a você, se pudesse, o respeito àquilo que é indispensável: a justiça, a honestidade, a limpeza de alma e propósitos. E, muito importante, o amor aos livros. Livros são amigos que nunca traem, nunca abandonam e estão sempre ao seu dispor.  Alguns são pura mágica, espelho limpído onde sua alma se vê por inteira,  se reconhece e se fortalece. Esses são raros e tão individuais quanto impressões digitais. Mas se você tiver a sorte de encontrá-los vai sentir que eles são mais seus do que um filho seu, embora não tenham nascido de você.

Deixaria também a alegria de ganhar seu pão com trabalho honesto e o prazer de repartí-lo com aqueles a quem você ama. Mesa boa é aquela rodeada por amigos e amados.

A coragem de agir sempre que a vida, a justiça e o bem estar de alguma pessoa ou outro ser vivente estiver ameaçado.

A valentia de não se omitir e nem precisar fazer parte dos rebanhos que seguem modas e tendências efêmeras e nem sempre positivas.

Se eu pudesse lhe deixar algum presente seria essa única dica:

pense em sua vida como um bordado, sendo construído dia a dia, os pontos sendo todas as suas escolhas, pequenas e grandes. Eu sei que assusta. Acredite: já tenho quase 50 natais e ainda me apavoro com essa idéia, com a responsabilidade embutida nela. Mas acredite: sei que ela é verdadeira. 

Adoraria poder lhe dar um pacote bem grandão, transbordando de sabedoria, para que você sempre escolhesse apenas as cores alegres e desse sempre os pontos certos no seu bordado. Mas, infelizmente,esse presente não posso lhe dar. Porque ele só virá com o tempo, esse senhor caprichoso, misterioso, e tão bonito quanto a cara de meu filho, como tão lindamente compôs Caetano.

Ao errar não se desespere, não rasgue o tecido, não jogue tudo fora, não pense que não tem conserto. Nessa arte de ir bordando a vida não se fala em "se você errar", mas em "quando você errar", porque os enganos são inevitáveis. E, ironia das ironias: com eles também se aprende a bordar. Portanto, tente lembrar de jamais menosprezá-los, porque isso só os estúpidos fazem. Mas tente também jamais supervalorizá-los, porque isso também é estupidez e só vai criar mais confusão no seu bordado, embaçar sua visão, complicar com neuroses e culpas coisas que já passaram e que devem ficar no passado. Tente apenas não repetí-los e já vai estar de bom tamanho.

O ofício de bordar é difícil mesmo, nunca ninguém disse que seria fácil. Mas o grande barato dessa arte delicada é que  sempre é possível desfazer os pontos errados, mudar o desenho, trocar as cores que não combinam, inventar novas modas. Dá pra fazer um risco torto virar o começo de um curva enorme, linda e sensual, igual as do Niemeyer. Ou algo pequenino, como o rendilhado primoroso da asa da borboleta. Sempre é possível recomeçar.

Cada novo dia é um espetáculo inédito e cada um de nós decide se ele findará em lágrimas, como uma tragédia. Ou em drama, como numa ópera daquelas bem barulhentas. Ou com olhos arregalados, coração agoniado e gritos de um filme de terror. Ou ainda em risos e alegria e mais garra para viver, como nas boas comédias. Que nos tornam leves e com vontade de sair por aí cantando e dançando até mesmo na chuva, como naquele clássico do cinema. 

Para terminar e embrulhar esse presente inusitado, mistura maluca de ABCs e todos os irmãos e primos dessa família fantástica, minhas últimas palavras: quando a agulha picar seu dedo, o sangue dolorido respingar no bordado e sua vontade for desistir de tão complicada arte, não faça nada, além de ir para um canto e chorar bastante.

Nunca faça nada na dúvida, porque isso é sair do terreno instável da incerteza e entrar na areia movediça do risco. Chore tudo o que puder, soque seus travesseiros, canse seu corpo, de preferência nadando no mar. Stress se dissolve em água, isso já aprendi com os meus tais 50 natais. Depois seque os olhos, se vire no avesso e vá buscar em seu interior a coragem e a força para encontrar a saída.

Porque pode acreditar: ela sempre existe. E está mais perto do que você imagina.

Feliz Natal!

                                                             

 


 



 Escrito por Sinha Clementina às 14h05
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