Varanda da Sinhá da Camiranga
 


PERCEBE?

 

LIFE IS MOSTLY A MATTER OF PERCEPTION.

AND MORE OFTEN, MISPERCEPTION.

 

Dave Logan



 Escrito por Sinha Clementina às 10h42
[] [envie esta mensagem] []




VOCÊ É UM BOM OUVINTE?

Você é um bom ouvinte? Já parou para pensar no que significa ser um bom ouvinte?

 

Já se deu conta de como é irritante lidar com uma pessoa que não sabe ouvir? Não me refiro aos surdos, mas àqueles indivíduos que são incapazes de realmente prestar atenção em seus semelhantes. 


E o mundo está cheio deles, de vários tipos. 

Há aqueles que você visita e eles lhe recebem com beijos e cafezinho, mas são incapazes de desligar a porcaria da televisão e lhe dar atenção integral. Só podem oferecer uma atenção quebrada feito arroz de terceira, prato pobre incapaz de nutrir qualquer relacionamento. Você sai do encontro com fome de calor humano.


Há aqueles que a toda hora interrompem o papo para receber ou mandar torpedos ou falar pelo celular. Ou checar se fulana ou sicrano -- entre as centenas de amizades virtuais que cultivam --  acaba de proclamar alguma coisa nos Facebooks, Orkuts e Twitters da vida. 


Há ainda aqueles portadores da Síndrome do Coelho da Alice, em estado terminal. Lembram daquele personagem do livro “Alice no País das Maravilhas” que corria para lá e para cá segurando um enorme relógio e gritando “não há tempo, não há tempo”?  Pois então, esses só sabem proclamar que a amizade (ou o amor) é verdadeiro e eterno, pena que não há tempo. Também se encaixam nessa categoria  aqueles que ao vivo apertam sua mão com a firmeza de uma geléia e não te olham nos olhos. Virtualmente sequer dão um sinal de que receberam seus emails ou telefonemas, mesmo quando está em jogo algum assunto de trabalho ou até algum interesse comercial deles, não seu. E ainda aqueles que prometem que vão fazer algo sem ter a menor intenção de cumprir. Figuras detestáveis. 


E os adeptos de fazer várias coisas simultaneamente? Fingem que querem e podem conversar e lhe dar atenção enquanto gritam ordens à empregada, dão broncas nos filhos, lixam as unhas, fazem listas de compras, retiram da bolsa centenas de papeizinhos inúteis que foram acumulando e ainda votam pelo celular pra eliminar outro idiota do Big Brother. Vocês pegaram a idéia né? 


E os ultra ansiosos, aqueles que terminam suas frases por você? Não são de endoidar? Você começa a contar uma história e o vivente tira conclusões precipitadas, interrompe sua narrativa com um “já sei. Daí aconteceu isso, assim e assado”, quando na verdade aconteceu algo completamente diferente. Que ele jamais ficará sabendo porque não foi capaz de simplesmente ouvir e nessa altura dos acontecimentos você também já desistiu de contar. Contar pra que? 


Pensa que acabou? Não. Tem ainda aqueles que sem pedir sua permissão convidam outras pessoas pra se juntar à conversa e jogam por terra qualquer possibilidade de uma troca mais íntima e profunda. Tem aqueles que você apenas comenta que está com uma dor nas costas e eles subitamente recebem o espírito do Dr. Fritz mesclado com os do Freud, Lacan & Cia. E começam as conjecturas enigmáticas do que a sua queixa realmente significa. Certa vez ouvi que eu não estava sendo capaz de “ segurar o peso da realidade”, quando meu problema era apenas um mau jeito na coluna, causado por um colchão velho. Foi só trocar de cama e minha diagnosticada incapacidade de segurar o peso da realidade sumiu, como por encanto.  


Já observei outros tipos de ouvintes ordinários, mas melhor parar  senão isso aqui vira um compêndio ao invés de uma coluna, sem trocadilhos com o parágrafo acima.


Faz quase 30 anos que me formei em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Bernardo do Campo. Nessas quase três décadas o mundo trocou de roupa, sapato, maquiagem e  penteado diversas vezes e isso provocou mudanças profundas no exercício de nossa profissão. Mas apesar de todas essas mudanças sociais e tecnológicas o Jornalismo continua sendo, na essência, a profissão dos contadores de boas histórias. E só consegue contar uma boa história quem tem disposição e educação para praticar o ouvir atento e atencioso. 

Ouvir não só o que é dito pelas palavras, mas também e principalmente o que é comunicado nas pausas e silêncios, nas sutilezas dos olhares, nas mudanças do tom da voz, no corpo e seu repertório de gestos e posturas que nunca mentem. 

 

Tenho dois amigos queridos e competentes que lecionam em faculdades de Jornalismo aí no Brasil. Um dá aula de Semiótica, Linguagens e Estruturas do Discurso.  O outro dá aulas de Técnicas de Redação, como construir bons parágrafos e coisas afins. Eu nunca dei  aula de nada, mas se pudesse influenciar mudanças curriculares nas faculdades de Jornalismo e de outras áreas de estudo sugeriria um curso para formação de bons ouvintes.


Porque ser um bom ouvinte, entre outras coisas, é fundamental para alguém ser um bom jornalista. Ou médico, político, pedreiro, professor, etc. E ser também, de quebra, um bom amigo, um bom filho, um bom pai ou mãe, um bom patrão ou empregado, um bom membro de qualquer equipe. Ser, enfim, uma pessoa possível de se ter uma interação minimamente agradável. Ouviu?

 

 



 Escrito por Sinha Clementina às 12h45
[] [envie esta mensagem] []


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
 
 
 


BRASIL, Sudeste, pra lá de Deus me livre!, Varanda da Rede da Paz, Mulher, Mais de 65 anos, Causos da vida alheia, estórias do povim


 





 buraco do Negao
 BOL - E-mail grátis
 UOL - O melhor conteúdo



 Dê uma nota para meu blog